12.11.09

cena cotidiana

A cena se constituía de amigos sentados na frente da televisão. No começo, os quatro vão se levantando devagar olhando fixamente para frente. “Puta que pariu” um dos homens grita, xingando o juiz do jogo de futebol. Os homens conversam um pouco sobre o lance e entende-se que o jogo entrou no intervalo. Um comercial de cerveja começa a passar e os homens fazem comentários sobre as garotas da propaganda. As mulheres reclamam e pedem para que se troque o canal. Zap. “Vocês viram essa notícia da menina da Uniban?” pergunta uma das mulheres. Segue-se uma conversa rápida, intencionalmente superficial, a respeito da notícia e a s opiniões se dividem entre os que acreditam que a menina provocou o tumulto com o uso de sua mini saia e os que acreditam que toda a histeria e a atitude dos alunos foi um absurdo.ZAP. no próximo canal passa uma novela. As mulheres comentam sobre uma personagem, admirando-a e exaltando as qualidades de mulher guerreira, fantástica, que sofre mas batalha, enquanto que os homens simplesmente comentam “essa é pra casar”. Os homens então querem voltar a ver o jogo, enquanto as mulheres querem continuar a ver a novela. A cena termina com o comentário: “mulher é tudo igual”.

A cena foi montada mais baseado na parte N do livro As passagens em que Benjamin discute a construção do conhecimento. Aqui Benjamin expressa a idéia do conhecimento existindo apenas em lampejos, colocando a imagem como “aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação”. Era um pouco esta a idéia em que baseamos a cena, onde o zaping da televisão representa essa forma fragmentada (cuja forma Benjamin trabalha) através da qual montamos nossa visão de mundo. Na cena usamos uma questão de gênero, a construção da mulher, para dar uma seqüencia coerente dentro da própria cena, mas outros temas poderiam estar colocados. Usando uma cena cotidiana comum, permeada por fatos ocorridos recentes e através de comentário, opiniões e falas que estamos acostumados a ouvir diariamente procurou-se debater como esta idéia de construção do conhecimento de Benjamin pode estar de fato revelando um processo que se dá no dia a dia. Nesse sentido o TS não teve a intenção de ser impactante, mas pelo debate que se travou após o TS, pudemos perceber que o impactante do seminário foi exatamente o elemento da banalidade na cena. A superficialidade da conversa, os amigos que se falam como que por meio daquilo que se mostra na televisão e as relações mediadas por esse aparelho, tanto entre esses amigos, como entre as pessoas e a realidade, foram alguns dos aspectos que a sala ressaltou como interessantes do TS, exatamente porque era possível fazer uma identificação com a vida comum cotidiana. A cena representou uma verdade.não uma verdade, como diz Benjamin na página 505, atemporal. Diz ele “a verdade não é – como diz o marxismo- apenas uma função temporal do conhecer, mas é ligada a um núcleo temporal que se encontra simultaneamente no que é conhecido e naquele que conhece”.

TS6
TEXTOS: BENJAMIN, Walter. Passagens. Arquivos A, F, P e E. Org. Willi Bolle. Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/ Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
São Paulo, 5 de novembrode 2009
Nome do Grupo: Grupo
Grupo: Ana Catarina Romitelli, Nathalia Capellini de Oliveira, Renata Veloso Guimarães, Yana Lumi Fujita, Felipe Mahlmeister Ribeiro, Mateus F. Stelini, Guilherme Leon, Breno Benedykt

Rafael


Pensando no excerto do texto no qual Benjamin descreve um sonho no qual ele se suicida, e ao invés de acordar imediatamente ainda fica alguns momentos observando seu próprio cadáver, estabelecemos também uma relação com a busca de sentido (ilusória) de uma vida fragmentada no momento da morte, montamos os seguinte TS:

A cena toda acontece durante o velório de Rafael, um sujeito que se suicidou. Enquanto velam o corpo, as personagens em voltam murmuram sobre fatos marcantes da vida e da personalidade do defunto.


No final, a revelação: o personagem que lia o jornal afirma para o outro que murmurava:

- Rafael, eu te matei.

Este personagem vira-se para o que comentara sobre os seus anos de faculdade e fala:

- Rafael, eu te matei.

O que havia contado os causos de fauldade repete a mesma coisa para o que falara dos seus dias como funcionário público e assim, um a um, cada personagem assume a culpa pelo assassinato do outro, até que todos são vítimas e culpados.

Uma das leituras feitas pelo grupo é que os personagens são todos a mesma pessoa, o Rafael, diferentes facetas de uma personagem fragmentada.

TS: 05
Apresentação:Último Grupo.
Texto de referência: BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas II: rua de mão única. SP, Brasiliense, 1993, p: 9-70.
Data de postagem: 12/11/2009
Nome do grupo:Grupo Grupo
Participantes do TS: Alexandre F. Ribeiro, Aline Camargo, Andreas Guimaraes, Bianca Boggiani Cruz, Edmir, Felipe, Felix Toro, Flávia Sztutman, Paulo Futagawa


Sobre tudo que é monumental TS6


Postado por Aline Camargo

Nesse TS, o grupo, num total de 9 pessoas, fez um círculo de cadeiras no meio da sala e iniciou-se um jogo das cadeiras, para o qual todos cantavam “ciranda, cirandinha”. Quando um membro do grupo gritava “pára!” todos se sentavam e aquele que sobrasse de pé retirava uma das cadeiras e levava-a ao centro da roda, onde ficava com a mesma. Isso se repetiu diversas vezes, e conforme as pessoas iam “sobrando” no jogo e levando suas cadeiras para o centro da roda, o círculo ia desmanchando-se e no meio da sala ia se formando uma única forma, composta de pessoas e cadeiras empilhadas umas sobre as outras.

Até que finalmente, o último participante a sobrar sentado na última cadeira, sozinho, pegava um placa e colocava-a no “monumento” formado no meio da sala, composto pelos que haviam participado do jogo e de cadeiras.

O TS foi inspirado na obra “Passagens” de Walter Benjamin, e para elaborá-lo o grupo focou no aspecto da obra que discorre em fragmentos sobre a modernização de Paris e suas possíveis conseqüências.

Uma das significações possíveis elaboradas pelo grupo foi enxergar a roda e sua movimentação - através da brincadeira e da dança das pessoas – como algo que remetesse à vida de uma cidade, de uma comunidade ou de uma sociedade que aos poucos vai sendo interrompida e desmantelada para a construção de algo distinto do funcionamento orgânico da mesma, nesse caso, um monumento. Há aqui a situação na qual a construção do monumento implica no fim da vida dessa comunidade como ela existia antes, e possivelmente da vida dos indivíduos que a compõe.

Nesse ponto o grupo inseriu na discussão questões como os trabalhadores que morreram sufocados e esmagados nas construções de obras como a ponte Rio - Niterói e Brasília e estão lá até hoje cimentados. Não deixam de ser monumentos à modernidade. “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”, como diz Benjamin no texto Sobre o conceito de História.

Diversas leituras forma feitas na discussão em sala, dentre as quais uma que via no empilhamento de pessoas e cadeiras a construção de uma favela. A discussão do TS foi pautada por comentários a respeito dos efeitos da modernização e da própria Modernidade sobe a vida das pessoas, do funcionamento das sociedades e como tudo isso é retratado na obra de Benjamin.

TS: 06 (04/11/2009)
Apresentação:Último Grupo.
Texto de referência: BENJAMIN, Walter. Passagens. Arquivos A, F, P e E. Org. Willi Bolle. Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/ Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
Data de postagem: 12/11/2009
Nome do grupo:Grupo Grupo
Participantes do TS: Alexandre F. Ribeiro, Aline Camargo, Andreas Guimaraes, Bianca Boggiani Cruz, Edmir, Felipe, Felix Toro, Flávia Sztutman, Paulo Futagawa

11.11.09

PALAVRAS, MEMÓRIA, CAMINHOS

Em nosso TS buscamos seguir pistas levantadas em nossa encenação do TS05 (“Rua de Mão Única”) e explorar algumas dimensões próprias do texto de referência da semana.
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xxxxxxA estrutura da cena era bastante simples: cada um dos integrantes escolheu um tema (novelas brasileiras, ruas de São Paulo, universidade, intercâmbio e Lévi-Strauss) que supusemos ser de interesse, ou conhecimento, compartilhado por todos os espectadores. A partir dos temas, levantamos vocabulários de palavras-chave (no caso Lévi-Strauss, por exemplo: estrutura, parentesco, mel, cinzas, cru, cozido, incesto, modos à mesa, xamanismo, trópicos, bororo, primos, viagem, inconsciente, antropologia, mito, eficácia, selvagem, totemismo, lei, regra, tristes, encruzilhada, elementares, USP). A cena propriamente dita se deu na escrita desse vocabulário na lousa: simultaneamente, nós cinco escrevemos as palavras-chave, traçando caminhos a partir delas. Ou seja, cada palavra se ligava à próxima por um traço, de modo a preencher toda a lousa numa sobreposição de caminhos. O intuito foi manter apenas as palavras-chave de um mesmo tema no mesmo tracejado, mas eventualmente ligamos palavras de temas diferentes. Um dos objetivos era conseguir com que as palavras de cada caminho/tema se deixassem contagiar pela proximidade com os outros caminhos/temas. Por exemplo, ao se aproximar do tema universidade, a pessoa responsável pelo tema Lévi-Strauss deveria escolher uma palavra que estabelecesse algum tipo de relação significativa (reitoria - modos à mesa, ou júpiter - totemismo), buscando criar (literalmente) aproximações inesperadas.
xxxxxxxUm dos nossos interesses, do ponto de vista formal, foi re-experimentar a noção de hipertexto, navegação e montagem (ou sobreposição), que esteve presente em nosso TS05, na criação de caminhos simultâneos e articulados.
xxxxxxxPara a criação de nossa cena, foi fundamental o arquivo P, “As ruas de Paris”, no qual Benjamin reflete sobre os nomes, desenhos e memórias das ruas da cidade. Algumas de nossas preocupações apareceram ao longo da discussão com a sala após a apresentação, portanto, vale retomá-la aqui.
xxxxxxxInicialmente, as manifestações das pessoas foram mais tímidas, dizendo da dificuldade de acompanhar as lógicas da escolha das palavras, “temas que se perdem no caos”. Rapidamente, alguns notaram linhas narrativas que poderiam ser reconstruídas seguindo os caminhos das palavras-chave. Falou-se que as palavras escritas remetiam à “nossa” vivência: nosso universo da USP, São Paulo, novelas. Algumas pessoas narraram mesmo alguns percursos possíveis, descrevendo, por exemplo, um personagem imaginário que circularia por algumas burocracias universitárias, e pulando de um caminho para o outro conforme a proximidade do sentido das palavras.
xxxxxxxApós esse primeiro reconhecimento, foi sendo construída uma leitura da cena articulada com as discussões que viemos travando na disciplina sobre a obra de Benjamin e alguns de seus conceitos e imagens, “úteis para fazer pensar”. Uma pessoa levantou uma interpretação presente no arquivo P, do quadro construído sobre a lousa como memórias no espaço, caminhos que poderiam ter sido percorrido por Benjamin. Fez-se, assim, um paralelo entre o esforço do autor em Passagens e o TS: o mapeamento de uma memória coletiva, no caso de Benjamin e Paris, o inconsciente da cidade; no caso de nosso TS, o levantamento de um vocabulário verbal que buscava remeter a imagens e experiências compartilhadas pelos presentes.
xxxxxxxOutra interpretação que se fez do TS foi por meio da imagem da constelação. Em meio a uma cidade-labirinto, imagens e palavras surgiriam formando uma constelação que, vista de longe, pareceria uma imagem bidimensional, mas, ao ser percorrida, revelaria seus becos, suas passagens e memórias. A imagem da constelação ressoou inclusive na leitura que fizemos de um trecho do texto de referência:
xxxxxxxxx“A cidade possibilitou a todas as palavras, ou pelo menos a um grande número delas, algo que só era acessível a pouquíssimas, a uma classe privilegiada de palavras: serem elevadas à nobreza do nome. Esta revolução da língua foi realizada pelo que há de mais comum: a rua. – Através dos nomes de ruas a cidade se torna um cosmos lingüístico”. (grifo nosso)
[P 3,5]
xxxxxxxPor fim, foi sugerida uma leitura que articulou o TS ao momento presente no qual foi encenado: poucos dias após a morte de Lévi-Strauss. Acionou-se, aí, a idéia de que na hora do desaparecimento cria-se um efeito de despertar em “sonhos e frustrações” de uma época. Essa idéia esteve presente no projeto de conhecimento de Benjamin, que buscava registrar a Paris do final do século XIX, e pôde ser relida nas citações a um vocabulário que remetia a Lévi-Strauss.

TS: 06 (04/11/2009)
Apresentação:1º Grupo.
Texto de referência: BENJAMIN, Walter. Passagens. Arquivos A, F, P e E. Org. Willi Bolle. Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/ Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
Data de postagem: 11/11/2009
Nome do grupo: Frascos Comprimidos
Participantes do TS: Katherine Ramirez Poveda, Maria Carolina Moraes, Marcio Zamboni, Pedro Lopes e Tatiana Amaral.

Passando

Pedimos para que a platéia se espalhasse pela sala ocupando todo o espaço. Um dos atores ficou jogado no centro do chão da sala. Os outros ficaram formando um circulo em volta das pessoas espalhadas pela sala. Inicia-se a cena com os atores ao redor da platéia, um a um, gritando frases retiradas do texto e jargões da mídia como “que deus salve os homens e meu comercio também”, ou “gostoso como a vida deve ser”. Estas frases eram proferidas aos berros, com terror, e em cada fala o ator gritava olhando nos olhos de uma pessoa da platéia, tentando amedrontá-la empurrando-a para o centro da sala, para próximo do ator jogado no chão. Conforme as pessoas iam se aproximando deste ator, ele se levantava, crescia, se desenvolvia, como que rastejando, utilizando as pessoas de apoio. Os atores que rodeavam a platéia foram falando e aproximando as pessoas do ator central até o momento que este já estava completamente em pé. Neste momento ele diz uma frase sobre a cidade e os transeuntes.
O grupo quis fazer uma analogia com o texto de Benjamin, passagens, que fala, entre outras coisas, sobre a cidade e seu crescimento. Este processo produz belezas como as passagens, as vitrines das lojas, mas também exclui. Pretendíamos mostrar como a cidade, representada pelo ator central, não é um ente abstrato, mas algo feito de relações ocorridas na cidade, que a formam, que a transformam e recriam continuamente. As pessoas fazem com que a cidade cresça, como o ator que se apoiava nas pessoas para crescer. Os atores ao redor estavam funcionando como apóstolos da cidade, que diziam frases belas, de efeito, mas que continham em si, no caso, na forma como eram proferidas, uma agressividade, uma força que, juntamente com o significado delas, empurravam as pessoas para a construção da cidade. O interessante desta cena foi que as pessoas acabaram fugindo da cidade, com medo dela, se aproximando mais dos atores que gritavam. Isso pode nos fazer pensar sobre o como as pessoas ainda têm agência, e não necessariamente fazem o que são “empurradas a fazer”.

TS 6
Texto de Referência: BENJAMIN, Walter. Passagens.
Data de postagem:
Grupo: Ah! Influenza
Integrantes: Diego Veiga; Márcia Fernandes; Carlos Conte; Cibele Assensio; Daniel Lage; Raoni Costa; Gabriela Iglesias; Ana Luisa Sertã.

A dinâmica da cidade e a modernidade


TS6 - Grupo Marginal - 3° a se apresentar - NOTURNO


A apresentação foi montada visando reproduzir o movimento caótico de uma cidade, sua dinâmica e relações de trocas, tanto comerciais, quanto de impressões dos indivíduos sobre o ambiente urbano e as alterações que a cidade sofreu com a modernização e o desenvolvimento alcançado.
Para isso, montamos uma disposição espacial na sala de aula em que todos os alunos ficassem de pé, sem uma ordem definida. Os alunos – ou público – seriam tanto platéia, quanto ator da cena montada. Tentamos, com isso, buscar a Paris “pré-Haussmann”, que Benjamin por diversas vezes nos mostra em “Passagens”, ou seja, a Paris das ruas estreitas, das intensas trocas entre indivíduos, que se vêem, se esbarram, enfim, estão se relacionando entre si e com o espaço em que habitam.
Na encenação, montamos um pequeno trajeto pela sala, marcado por situações retiradas da obra “Passagens” de Benjamin, típicas da Paris (ou de qualquer outra grande cidade) em mudança. A primeira situação se dava com um homem sentado num tronco, tal como escreve Benjamin no fragmento P 3,8 (BENJAMIN, 2006, p. 563).
A segunda situação acontece com dois amigos falando sobre a ponte Jornalista Roberto Marinho, na cidade de São Paulo. Na conversa dos dois frisa-se que a ponte mudou de nome (de Águas Espraiadas para Jornalista Roberto Marinho) – numa clara alusão a perda da memória e história da cidade – e que nesta ponte é proibido o tráfego de bicicletas e transportes coletivos – demonstrando que a cidade (no caso São Paulo) cresceu, se desenvolveu e se tornou cada vez mais individualista, como ao privilegiar o meio de transporte automotivo.
Em seguida, abordamos outra situação do desenvolvimento das grandes cidades – especificamente na Paris “pré-Haussmann” apresentada por Benjamin – onde encenamos três indivíduos admirando os produtos de uma vitrine de loja e comentando sobre a beleza dos artefatos e sobre o preço de cada um deles. Neste momento foi interessante a participação de um colega de outro grupo de TS que estava exatamente no espaço onde imaginamos que seria a cena da loja – como uma vitrine viva – deixando ainda mais explícita a nossa intenção nesse momento da encenação: a de que os próprios indivíduos passam a se transformar em mercadoria, devido ao desenvolvimento do capitalismo. Dessa forma, a vitrine, com o colega representando um manequim da loja, nada mais era do que um espelho, sintetizando indivíduos em mercadorias (BENJAMIN, 2006, p. 85). Nesta cena nos inspiramos muito nos momentos em que Benjamin relata a passagem da venda de mercadorias sem preços pré-estabelecidos para a massificação da mercadoria, por meio do tabelamento de preços.
Por fim, a última situação foi representada pela “Haussmanização” amplamente exposta por Benjamin no texto “Passagens”. Buscamos representar a Paris caótica, das barricadas, ruas estreitas e dos contatos entre indivíduos por meio dos colegas todos de pé e se movimentando sem ordem definida, como um período “pré-Haussmann”, de uma Paris antiga. Até que, num determinado momento, um integrante do grupo entra na cena representando Haussmann – ou o “engenheiro” do fragmento F 3,6 da obra “Passagens” de Benjamin (BENJAMIN, 2006, p. 195). Este, percebendo o movimento caótico da cidade (representada pelos colegas de pé na sala de aula), questiona o porquê desta situação e passa a organizar todos em duas filas indianas, com a ajuda de um “obreiro” (representado por outro integrante do grupo). Forma-se, assim, uma larga avenida no centro da “cidade”, por onde o integrante representando Haussmann (ou o “engenheiro”) passa dizendo a seguinte frase: “A modernidade pede passagem”.
Dessa forma, nosso objetivo nesse TS foi representar a modernização das cidades sob a ótica econômica (na mercadoria), social (com os relacionamentos) e urbanística (abertura de avenidas acarretando em fluidez de trânsito). Ficou claro para o grupo que a leitura de Benjamin a respeito de Paris em “Passagens” diz muito sobre como a modernização, junto com um capitalismo “dilacerante”, afetou profundamente a dinâmica das relações sociais nas cidades. Assim como no filme “Berlin, a Sinfonia da Metrópole”, do diretor Walter Ruttmann, a força do moderno toma a cidade, a retifica com a máquina, num objetivo de organizar tudo e todos sob a ótica da mercadoria e da fluidez das relações sociais.

Texto de referência:
- BENJAMIN, Walter. Passagens. Arquivos A (Passagens), E (Haussmanização, lutas e barricadas), F (construção em ferro), H (O colecionador), J (Baudelaire), K (Cidade de sonho...), M (Flaneur), P (As ruas de Paris). Org. Willi Bolle. Belo Horizonte/ São Paulo: Editora UFMG/ Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

Participantes do TS: Ana Maria de Almeida, Guilhermo B. Panebianco, Thais Brando B. C. Faria, Tiago D'Ambrosio, Fernanda Hyra e Laura Fostinione.

8.11.09

“Rua de mão única”

1. Descrição da cena:

Um ator entra caminhando pensativo (por um corredor? uma casa? uma praça? uma rua?). Caminha até uma janela fechada. Olha por ela. Dá meia volta, pensa, reflete, repensa, olha, reolha. Alcança um interruptor de luz. Apaga a luz. Fecha os olhos e sai da sala. Volta de olhos fechados. Uma turba de gente (fantasmas? demônios?) entra estrondorosamente por trás dele, murmurando e falando palavras incompreensíveis, rindo sozinhos, em diálogos em pequenos grupos. Vez ou outra entra duas personagens se encontram no procênio, mas à espectativa inicial de cada um segue-se um comportamento inesperado do outro. Essas personagens posicionam-se atrás do protagonista, movem-se atrás dele, suas cabeças pendem do corpo dele, por trás, de alto a baixo, em expressões grotescas de sentimentos variados. O protagonista dirige-se à janela. O coro continua junto no local onde estava. Quando o protagonista chega à janela para abri-la, quem a abre é uma das personagens que estava no coro, que corre para adiantar-se ao ator principal no ato de abrir a janela. Ao abri-la, entra um vento muito forte que faz o primeiro ator virar-se, abrir os braços, abrir os olhos e mostrar no rosto expressão de perplexidade e surpresa. O vendaval também carrega junto todas as demais personagens, jogando-as contra o paredão oposto, onde ficam presas e imobilizadas na mais variadas posições chapadas.

2. Comentário do grupo:

Cada novo texto: um novo desafio. As formas não impõem-se de fora: por sua a sua aparente deformação: conformam-se em uníssono aos novos conteúdos: rua de mão única: rua sem saída: a paralisia diante da bifurcação: dos cruzamentos: das veredas e atalhos múltiplos: a paralisia diante de benjamin na rua de mão única: as ranhuras e as sujeiras, as dobras e as rugas: superfície em que as coisas não grudam: plástica: brazil, o filme: propaganda, neura de limpeza: as dobras e as rugas comportam o que a propaganda não comporta: no interior estamos sujos de terra: em são paulo estamos molhados: é normal: mas com assepsia doentia: fenômeno da modernidade: limpar para clarear, entender, classificar, facilitar, praticizar: teflon na panela: bombril: brilho de aço: espelho irrefletido: caminho pronto: gôndola de supermercado: espelho: tão brilhante, mimético, reflexo: que você chega e encontra só o que você mesmo trouxe: cegueira. Fragmentos colhidos no campo de comentários plantados pela turma e pelo professor à luz da cena montada pelo grupo: O amanhã comprimido em uma página: como toda uma história de vida centripeta-se em um ponto: e como a história pode partir de um ponto, centrifugar-se e centripetar-se novamente: ciclo renovador. A janela: olhos fechados, olhos abertos: o sonho real na realidade da fantasia: a janela aberta de olhos fechados: e o olhar “projetor” aberto pela janela fechada: fractal: dobras que se desdobram em várias outras: polilogia: mil faces: riso mefistofélico: o fractal é sujo e limpo: assombrações: bochichos: cochichos: benjamin está por um lado buscando um jeito em que estejamos em estado de alerta pra poder captar o que vem do subterrâneo: o sonho nos leva a isso: não lembrar o passado, mas aflorar o passado no presente: os demônios do passado: janela: elemento libertador que soprou tudo isso: quem abre a janela é o demônio: é o fantasma: é o medo da pessoa que abre a janela que o liberta: a mão esquerda é a sinistra: é com ela que se dá o golpe. Há um projetor compondo a janela e os olhos: eles vêem? estão obsoletos? sua utilidade está perdida? são um (ultra)passado presente? caleidoscópio: vidros e espelhos: as brechas lá: aquelas brechas para as pedras girarem: rua sem saída: esquizofrenia social: a janela fenda que se abre ao passado: a paralisia: o momento em que o passado se articula ao presente: momento em que é possível encarar os demônios com coragem. Imagens do passado: conceito de história: “fixar imagens do passado”: imobilização de imagem carregada de tensões: captar e fixar: a dialética em estado de paralisia: demônios na parede: vento carregado de forças demoníacas: também destrutivas: que voltam a nos assombrar: voltam com força redobrada quando você tenta enterrar energias represadas do passado, na verdade, presente: Vento como rua de mão única: Asja Lacis foi libertadora do Benjamin? Foi um jato de mão única na vida dele? São interpretações do passado. “Precisamos de uma nova barbárie”: coragem de começar de novo. Nós somos capazes de renovar. Coca-cola: carro novo: comerciais na televisão: o formato comercial na cena: o que é liberdade? o que liberta? Os demônios continuaram ali, paralisados, naquela camada da cabeça daquele indíduo: sem força: mas podem voltar! Vento! Imagem recorrente no Benjamin. Angelus Novus. Pensar bem, formar conceitos: as idéias são como velas: é como içar velas: é o posicionamento das velas para captar as tensões dos ventos: captar a tormenta: é a completa destruição das velas: o seu restauro e rearmação, aniquilamento completo ou reconfiguração completa: para onde vão os ventos? o que levam? o que trazem? quem os resiste? quem se delicia com eles? Mensagem dos deuses? É Júpiter calando o parlatório? O que acontece embaixo das casquinhas? no diamante todos os lados são puros e limpos: o que tem dentro do diamante? os demônios surgiam na escuridão: e ao acenderem-se as luzes? somem? mas a janela tinha a ver com o vento, com o ar fresco ou com a luz? esquizofrenia! são esquizas a propagandas de televisão: a do carro: o que ele fez pra merecer o carro: diferente do comercial do refrigerante. Tem demônio... e tem demônio! tem demônios que te impedem também!

TS5 - TEXTO DE REFERÊNCIA: BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas II: Rua de mão única. SP, Brasiliense, 1993, p: 9-70.

NOME DO GRUPO: “A imagem de hoje é...” PARTICIPANTES: Nicolas Zorro, Bruno Puccinelli, Cristiane Fontana, Priscilla Sbarra Gil Alvarenga, Rodolfo, Leandro Paixão dos Santos.

7.11.09

três membros do grupo sentam-se, lado a lado, diante de toda a classe. Atrás desta primeira fila jaz uma outra, também com membros do grupo, em pé. Na primeira fila, aquela das pessoas sentadas, uma pessoa, em uma extremidade, começa a enaltecer o Brasil e a enumerar aspectos positivos e de senso comum sobre a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas a serem realizadas no Brasil. Na outra extremidade desta fila de três pessoas está um membro do grupo que faz o papel de uma barata que se lamenta por diversas circunstâncias vividas pelo país e que escarnece as “maravilhas” apontadas por aquela da outra extremidade com relação aos avanços aos quais o Brasil estará sujeito com a realização destes eventos. A pessoa da primeira fila que está entre estes dois que falam pondera as afirmações dos outros dois com um papel no qual está desenhada uma bomba, prestes a explodir. No plano de trás, as pessoas se movem para um lado e para o outro, de acordo com o que é afirmado pela barata e por seu oposto, sugerindo serem uma massa que se alinha, hora com este e hora com aquele ponto de vista. Ao final a massa se alinha com a pessoa que elenca as vantagens trazidas pelos dois eventos esportivos. O sujeito que está no primeiro plano, no centro, não é capaz de se convencer plenamente dos aspectos positivos apontados pelo outro e ao mesmo tempo não é capaz de se contrapor à massa e ‘à voz do progresso’ que é expressa pela personagem que cita aspectos positivos e progressistas que deverão vigorar no país graças à estes eventos. Ao final, ao invés de, com a bomba, matar a barata ou aquele que fala de um progresso forçado (tal como sugerido pelas afirmações ufanistas de senso comum), mata a si mesmo, engolindo a bomba.

O grupo quis, com isso, abordar um tema contemporâneo e à primeira vista incontroverso: o progresso que virá ao país na esteira destes dois eventos esportivos de âmbito mundial, fazendo assim uma ponte com alguns dos temas tratados por Walter Benjamim em seus excertos nos quais o autor critica fatos que lhe são contemporâneos e que, em muitos casos, são talvez naturalizados e olhados pela maioria das pessoas com certa indiferença (como o uso de luvas ou os hábitos dos marinheiros, por exemplo).
Os aspectos positivos e negativos levantados pelo grupo durante sua encenação tiveram a intenção de explicitar um contexto complexo (tal como ocorre com os fatos apresentados nos excertos) no qual pretensas vantagens e soluções estão colocadas por uma observação superficial juntamente com um mar de criticas e rejeições que são colocadas pelo próprio Benjamim. O personagem central, que se encontra na cena na primeira fileira, entre o ufanista e a barata, vive o drama de um contemporâneo de Benjamim que se depara com construções sociais acabadas e estáveis que, no entanto, convivem com uma série de aspectos problemáticos e negativos que podem facilmente encaminhá-lo ao pessimismo.
A barata, animal repulsivo e indesejável, que se elimina facilmente porém não em toda sua dimensão (continuam existindo infinitas baratas por mais que as matem), é a portadora das reclamações, críticas e de uma dose de realismo de quem quer olhar diretamente para os problemas. Uma personagem a tal ponto voltada para os aspectos negativos da realidade que não é capaz de ver nada para além destes. Esta barata cumpre justamente a função de explicitar as críticas aos fatos apresentados (relativos à Copa do Mundo e às Olimpíadas). Tal como a existência de baratas – realidade incomoda – os fatos que esta personagem apresenta são irredutíveis, parte da realidade. Este âmbito negativo da realidade, todavia, é tornado explícito apenas pela figura que perambula por estes meandros sujos e problemáticos da realidade... trata-se, de certa forma, do papel de Benjamin nestes textos.
Ao final o personagem central deveria optar por uma ou outra versão da realidade com a qual alinhar-se, conforme fez a massa (representada pelos alunos no plano de fundo). Entre uma perspectiva absolutamente pessimista e outra absolutamente otimista o personagem central acaba por optar pela negação não de uma ou outra visão, mas pela negação de si próprio. Ele é incapaz de associar-se a um pessimismo extremo e sem saída e igualmente incapaz de associar-se a um otimismo burro e infundado. Eliminando a si abstém-se de sua atuação como poderíamos, talvez, dizer que os excertos de Benjamin abstém-se de estabelecer e encaminhar diretrizes e soluções para os problemas que constata.

TS5
TEXTOS: BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas II: rua de mão única. SP, Brasiliense, 1993, p: 9-70.
São Paulo, 23 de setembro de 2009
Nome do Grupo: Grupo
Grupo: Ana Catarina Romitelli, Nathalia Capellini de Oliveira, Renata Veloso Guimarães, Yana Lumi Fujita, Felipe Mahlmeister Ribeiro, Mateus F. Stelini, Breno Benedykt

6.11.09

Outros sentidos

Foi pedido para que todos da sala ficassem espalhados, em pé. As luzes foram apagadas e a sala ficou na penumbra. Depois de alguns segundos começa uma cena. Escuta-se um pai e uma filha conversando em um museu. O pai está mostrando e explicando a importância do quadro da Mona Lisa. Ele descreve o porquê o quadro ficou famoso, fala das técnicas artísticas nele utilizadas, e um pouco sobre o autor. A filha parece não dar muita importância. Ela fica mostrando para o pai uma formiga que anda pelo quadro em um dos montes nele desenhados: “a formiga está prestes a cair no abismo”. O pai deslegitima a fala da filha, ele tenta persuadi-la a entender que o importante é a técnica, a beleza do quadro e não a formiga andando sobre ele. Novamente a sala fica em silêncio. Uma história começa a ser contada por alguém que está andando pela sala. A pessoa está em Campinas, desce por um arco-íris que se forma na janela do prédio onde ela está e que vai até o chão. Mas ainda está chovendo, por isso ela utiliza um guarda chuva para não se molhar. Junto com ela, diversas outras pessoas descem pelos arco-íris com ou sem guarda chuva. Depois da descida ela chega a São Paulo, um sonho no meio de uma tarde com chuva fresca. Novamente silêncio. Após alguns segundos, barulhos são escutados: chiados, marteladas, ruídos. Mais um momento de silêncio e duas pessoas começam a contar uma história, sussurrando uma para a outra, passando por toda a sala, entre as pessoas. Quando a narrativa acaba, o silêncio se faz novamente presente, só que agora por um longo período na sala, sem luz. Os barulhos de fora da sala que antes eram resíduos, agora são como que permitidos a serem escutados, mas quase que obrigatoriamente, pela não fala.

Durante a discussão foram levantados vários pontos interessantes referente a cena e o texto de Benjamin. Uma pessoa disse que teve uma experiência sensorial por não poder utilizar a visão, quase que pensando com o corpo. Outra teve a impressão de um sonho pelo escuro, e pelas cenas sem conexão. Sobre a cena da criança, foi falado sobre como ela estava “desperta para a vida”. A cena foi pensada a partir de fragmentos, tão caro a Benjamin. Os elementos oníricos nos ajudam a pensar de outras maneiras, outra referência forte da obra que apresenta elementos da subjetividade do sujeito.

Outro ponto trabalhado foi a questão dos resíduos. Eles sempre estão na cena, mas existe a necessidade de se querer ver, no caso, ouvir, para começar a perceber. Estimular outras formas de percepção amplia o aspecto sensorial e de apreensão do real. O silêncio forçado pela escuridão da sala foi proposto justamente para ativar estas formas sensoriais, as quais foram estimuladas na leitura dos fragmentos de Benjamin.

TS 5

Texto de Referência: BENJAMIN, Walter. Rua de mão única.

Data de postagem:

Grupo: Ah! Influenza

Ordem da apresentação: 4º grupo

Integrantes: Diego Veiga; Márcia Fernandes; Carlos Conte; Cibele Assensio; Daniel Lage; Raoni Costa; Gabriela Iglesias; Ana Luisa Sertã

4.11.09

Orquestra Dissonante

O texto do seminário da aula é “Rua de Mão Única”. Os integrantes do grupo reúnem-se antes da elaboração do TS. A sensação é consensual: “sobre o que poderíamos falar? Este texto é tão fragmentado... E agora?”. Resolvemos mostrar uns aos outros os excertos que mais nos agradaram.



- Poxa, eu chorei no ônibus lendo esta parte, fui acometida por uma imensa culpa.
- Nossa, eu pulei essa parte, ele tava falando da estória de inflação, achei que ia ficar um saco... Putz, legal mesmo, mas como a gente faria uma cena sobre isso? Sei lá... A parte que gostei mesmo foi essa.
- Caramba, li isso e não entendi bulhufas. Por que você gostou disso? Parece tão sem graça... Que quer dizer essa palavra?


Como vimos que cada um de nós gostava de partes diferentes do texto, e que tinha dificuldade de lê-lo, por causa da fragmentação das idéias, decidimos falar do texto em si e de sua forma.



Assim, em nossa cena pedimos, primeiramente, para que as pessoas da sala escolhessem uma determinada passagem do texto. Depois, uma pessoa do nosso grupo faria o papel de “diretor de uma orquestra” , os músicos seriam o resto do grupo e o instrumento o texto do Benjamin. O diretor apontaria para cada integrante do grupo para ele ler a parte do texto que escolhera. Se gostasse, pediria para a pessoa aumentar o volume da voz. Caso contrário, faria um gesto com as mãos pedindo para o colega abaixar a voz, ou mesmo cessar a leitura. Assim seria com praticamente toda a sala. No final da cena, pretendíamos que as vozes se justapusessem de maneira que se tornassem ininteligíveis.
Ao pedirmos para que cada um selecionasse um excerto de sua escolha, buscamos ressaltar o quanto o aspecto individual é fundamental para a leitura do referido texto. Dificilmente, duas pessoas farão uma leitura parecida de “Rua de Mão Única”. Aliás, é improvável que uma pessoa leia de forma parecida esse mesmo texto em diferentes períodos de sua vida. O leitor pouco versado na obra benjaminiana, “pinça” no texto o que há de relevante para si naquele momento – por não poder conferir um maior significado aos aparentemente desconexos itens de “Rua de Mão Única”.




Por ser composto por diversos fragmentos descontínuos, este texto pode ser lido de maneira não linear, sem causar grandes perturbações ao entendimento deste. O leitor é tentado a abrir em uma página qualquer, como se fosse um desses livros que abrimos em uma página ao acaso com o intuito de ver a sorte do dia.







Como disse André, o monitor da nossa turma, podemos comparar o uso que fazemos do texto de Benjamin com o uso que fazemos da Internet: quando pesquisamos informações no “mundo virtual”, não nos preocupamos em entender todas as informações de uma página antes de encontrar o link para as informações que nos interessam mais. O texto de Benjamin pode funcionar nesse sentido: mesmo que a pessoa siga o texto inteiro, ela se apega a alguns fragmentos que parecem úteis e abandona os que lhe parecem estranhos. Às vezes passamos para o próximo subtítulo antes de terminarmos o anterior por achá-lo incompreensível, ou lemos mecanicamente grandes trechos até encontrarmos uma formulação que nos atinja.



Pelo menos em nosso grupo, houve uma dificuldade generalizada para “amarrar” as idéias contidas nos textos de Walter Benjamin. Provavelmente essa sensação se dá por sermos mais familiarizados com formatos textuais mais ortodoxos, estruturados em um desenvolvimento que segue o percurso lógico introdução-tese-conclusão – e muito pouco familiarizados com as idéias benjaminianas. Não obstante, entendemos que nossa dificuldade não se dá por uma falta que coerência lógica do autor, muito menos por uma falta de talento de Benjamin enquanto escritor. “Rua de Mão Única” não foi escrito com o intuito de fornecer no final um argumento geral: ele é mais uma montagem de fragmentos significativos – montagem esta que pode ser comparada com a que se encontra presente em filmes de Eisenstein.



Enfim, nosso TS buscava representar o processo de montagem e sobreposições de trechos que é engendrada com a leitura do texto de Benjamin. Cada leitor faz a sua combinação de excerto dos textos, fazendo uma montagem que só faz sentido completo para ele mesmo. Entretanto, mesmo este sentido construído individualmente é passível de ser desestruturado, como tentou representar o desfecho do nosso seminário, marcado por um caos de vozes justapostas. O caráter não linear e fragmentário de “Rua de Mão Única” faz com que seja fácil a pessoa “se perder no texto”: os trechos se combinam formando um significado especial, até o momento em que este todo também deixa de fazer sentido. Quantas pessoas não adoraram o texto de Benjamin e, na hora de desenvolverem o TS, tiveram a sensação de que não tinham entendido muita coisa?


TS: 05 (21/10/2009) Apresentação: 1º grupo.

Textos de referência: - BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas II: rua de mão única. SP, Brasiliense, 1993, p: 9-70.

Nome do grupo: Frascos Comprimidos


Participantes do TS: Maria Carolina Moraes, Marcio Zamboni, Pedro Lopes, Katherine Ramírez Poveda e Tatiana Amaral.

Via Crucis século XXI, Estações dolorosas


TS5 - Grupo Marginal - Noturno - Segundo a se apresentar

{Espacialmente a cena começa na sala de aula - sala de estudo da casa da pessoa M – sai pelos corredores do prédio da Sociais – ruas, ponto de ônibus e praça do pregador – desce no primeiro patamar da escada da direita – vagão do metrô – e, após circuito circular, retorna para a sala de aula – agora consultório do Psicanalista.} {Personagens: Uma pessoa M que poderia ser qualquer uma de uma multidão de uma metrópole; o camelô de ponto de ônibus, uma velha, vários usuários de ônibus; vários usuários de metrô; uma cigana; um pregador evangélico de praça; o psicanalista Dr. Fritz Scholem}
1ª estação: trabalhos: Uma pessoa M falta ao trabalho, pois tem que fazer um trabalho para a Faculdade sobre Walter Benjamin. Entra com vários livros nas mãos que pegou na biblioteca, senta à mesa e vasculha o repertório que os livros lhe dão, sempre “lembrando” da extrema pressa em concluir o trabalho, pois está atrasada para o compromisso seguinte. A pessoa M folheia os livros, resolve escolher pelo mais fino, o escolhido por azar está em alemão. O segundo tem textos muito longos, o terceiro “redentor” escrito em pedaços de textos, lhe parecem “mais produtivos”. Assim diante do “Rua de mão única” ela lê aleatoriamente (nessa ordem) pedaços dos seguintes trechos: Posto de gasolina (só até ‘rigorosa alternância de agir e escrever;’ - pp.:11), Luvas (pp.: 16), Panorama Imperial (fragmentos II, III e X, neste último só até ‘não espere ele nenhuma ajuda.’ – pp.: 21, 22,24), Artigos de Papelaria (Peso de papéis – pp.: 36), Vestiário de Máscaras (só o 3º parágrafo - pp.: 65), Madame Ariane (pp.: 63 e 64) , Para Homens (pp.: 14), Panorama Imperial fragmento VII (pp.: 23), Fechado para reforma! (pp.: 56), Material Escolar (penúltimo e último parágrafo – pp.: 29 e 30). Enquanto lê, M “sofre” duas sensações: uma de que o tempo lhe cobra uma resolução rápida, pois está cada vez mais atrasada e não produziu nada ainda e, outra de um prazer pelo contato com coisas tão interessantes e delicadas e que poderia saborear se tivesse “outro tempo de vida”. Por fim, lê Proibido colar cartazes! Fragmento XIII (pp.: 31) e já em desespero, abre mão de tudo e resolve fazer um trabalho estilo “Google” (pesquisa na internet, copia e cola trechos sobre biografia, obras e citações sobre o autor, o tal W. B.). Findando rapidamente, corre para seu compromisso no mundo externo (convocando todos da sala para ir junto).

2ª estação: ponto de ônibus: correndo pelas ruas sujas e cheias, a pessoa chega ao ponto de ônibus que pela quantidade de gente apinhada já demonstra o atraso dos coletivos, que quando passam já estão tão lotados que nem param. Nessa “coletividade unida” pelas circunstâncias, passa um vendedor ambulante que grita repetidamente promovendo seus produtos, pessoas se empurram tentando pegar o ônibus que não pára, xingamentos e reclamações são berrados, e uma senhora idosa que pergunta sobre os “nomes” dos ônibus perturba a multidão (a velha não enxerga ou não sabe ler?)... Nesse clima irritante e hostil, a nossa já atrasadíssima personagem M resolve ir de metrô.
3ª estação: o metrô: Desce para a profundeza da estação sempre com um aglomerado de gente, que atrapalha o embarque, dificulta o “fechamento das portas” e atrasa o “intervalo médio dos trens” do metrô. Dentro do vagão, pessoas grudadas exercem sua individualidade absoluta falando ao celular ou ouvindo I-pod. Fragmentos de conversas desconexas soam pelo ar, (a filha que informa onde está para a mãe, o executivo comenta sobre a reunião, o cara que canta alto, e uma aluna fala que terá que apresentar um TS de antropologia- “Coisa mais maluca !”). M chega ao seu destino e sai da estação para “a luz da rua”.

4ª estação: rumo ao futuro, a cigana: Na rua caótica, M que já pensa em correr, tem que se desvencilhar de “bolos de gente”. Logo descobre que o motivo são as ciganas angariando fregueses. Uma delas aproxima-se e questiona M “- Estou vendo muita angústia. Deixa Ariane(?) ver seu futuro ?” Num curto diálogo, ainda não entendendo ao certo o nome da tal cigana, mas com a ligeireza de quem sempre andou pelo centro da cidade, M escapa da cigana e avança para praça, cuja primeira à esquerda seria seu destino final. Avança rápido, a rua está tão próxima, “o tempo do atraso” se encurta, mas....

5ª estação: rumo à catástrofe, o pregador: ...Mas encontra-se envolta num círculo de pessoas atentas, ou não, mas todas fixadas no discurso do pregador. E esse realiza a descrição dos males presentes, os sofrimentos humano, doenças, angústias, crises, a necessidade de cultivar as coisas do Senhor e o iminente fim do mundo de 2012. Entre performances e pessoas que “se comovem”, integrando aos gritos de aleluias, M não consegue passar. Nela mescla desprezo pela cena, preocupação em não “mexer com a crença dos outros”, pedidos de licença para seguir para seu compromisso, alguma discussãozinha e muitos folhetos redentores distribuídos... Somente depois consegue correr para seu destino final – atrasadíssima!

6ª estação final: consultório, solução ou tudo está perdido mesmo!: A pessoa M hesita à porta do consultório do dr. Fritz Scholem, psicanalista. Muita coisa passa pela sua cabeça naquele momento, ainda mais pressionada pelo tempo. “- Entro ou não? Já tô até vendo a cara dele, olhando para o relógio e pra mim e... mas se não entrar, ele falará “fugindo de novo”... como passo a semana depois... e esse mal... melhor ir...” Batendo a porta. “- Com licença?” Escuta: “-Entra! Tá atrasada. Como vai?” M, deitando destrambelha a falar, caoticamente vomita todo o mal-estar e os problemas, certa de que o “doutor” não vai falar nada mesmo. Numa pausa, desdobra um papel e lê ‘Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto. ’. “- Li isso, nem sei onde, mas achei legal e te trouxe! Mas acho que não se resolve nunca...” O psicanalista responde: “- É Walter Benjamin...” segue um silêncio, M completa: “- Acho que tô nas Trevas.” (apaga-se as luzes e escuta-se no escuro a fala do psicanalista) “- Todos estamos!”.

Após a apresentação, algumas considerações: o texto “Rua de mão única” apresenta-se como um caleidoscópio de sensações urbanas, de momentos limites e de considerações amplas sobre o humano em seu tempo “moderno”. O circuito dos fragmentos escolhidos (citados na peça), “aparecem” para a nossa personagem M, que os vivencia sem perceber na correria, no absurdo dos acontecimentos do seu dia, como qualquer um de nós que pare e preste atenção no cotidiano “lendo” Benjamin nas esquinas, entre as pessoas, nas angústias e nos pensamentos. “É como se se estivesse aprisionado em um teatro e se fosse obrigado a seguir a peça que está no palco, queira-se ou não, obrigado a fazer dela sempre de novo, queira-se ou não, objeto do pensamento e da fala.” (Panorama Imperial, fragmento VII, pp.:23).
A impressão é que o texto imprime uma necessidade de ir à rua, caminhar entre multidão, entrar e sair do metrô para fazer-se claro, perceptível, com “sentido”. A personagem M, típica caricatura do urbanóide “moderno”, vai tentar aliviar suas “dores”, dispensando a cigana, o pregador, mas caindo no conforto do psicanalista (o discurso da eficácia simbólica moderna). Nessa via crucis do século XXI, interessa o exercício de tornar estranho o muito familiar (a correria de M), familiarizando o estranho (os fragmentos de Walter Benjamin). É o discurso de nós sobre nós mesmos.



Textos de referência:
- BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas II: rua de mão única. SP, Brasiliense, 1993, p: 9-70.
- BENJAMIN, Walter. O surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia. In: Benjamin, W. Obras Escolhidas I: magia e técnica, arte e política. SP, Brasiliense, 1985, p: 21-35.
- DAWSEY, John C. Novos anjos: Iluminações profanas e teatro em caminhões. Xerox, p: 1-21.
Data da postagem: 04/11/2009
Participantes do TS: Ana Maria de Almeida, Guilhermo B. Panebianco, Thais Brando B. C. Faria, Tiago D'Ambrosio e Fernanda Hyra.

2.11.09

AVISO: alterações no layout

Devido a problemas na visualização quando do uso das ferramentas internas de busca do blog, muitos posts aqui publicados foram "desformatados", uma vez que o problema estava relacionado com os códigos html de pré-formatação dos editores de texto, códigos estes que são copiados com o texto quando este é transferido - recorte/cola - do editor de texto do computador para o campo de edição de texto do próprio blog. Para evitar que o problema ocorra novamente, sugere-se aos autores que, ao realizarem suas postagens a partir de agora, evitem transferir o texto já formatado do editor de texto para o editor do blog, privilegiando o uso das ferramentas de formatação disponíveis neste último, ou seja, é desejável que o texto venha para o editor do blog sem formatação prévia, e que esta seja feita neste editor mesmo. Seria interesse também que os autores das postagens verificassem se a "desformatação" referida descaracterizou muito o texto postado, e que faça as correções necessárias (itálicos, negritos, parágrafos...).
Além destas alterações compulsórias com vistas a resolver um problema técnico, o blog também sofreu alterações em seu layout geral, na tentativa de possibilitar a melhor visualização dos posts e dos elementos fixos da barra lateral e rodapé, sobretudo em monitores widescreen. Alguns desses elementos fixos mudaram de posição e lugar, sendo também incluídos alguns novos vídeos (sobre Brecht agora), e alguns novos verbetes no glossário de noções caras a esta disciplina e que surgem das leituras propostas no curso, como já era previsto.
Enfim, espera-se que estas alterações facilitem a navegabilidade e leitura geral do blog para todos, colaboradores, seguidores e leitores...