3.7.11

Video do TS final


Bem vindos ao novo prédio das Ciências Sociais!

2.7.11

Sr. Puntila e seu criado Matti

Grupo Sem Título
James Lima, número USP 5099793
Renato Abramo, número USP 4778687
Victor Martinez, número USP 7541963
Thiago Oliveira, número USP 5422010
Lia Bissera, número USP 4335432
Priscila Tavares, número USP 6428168
Verônica Deviá, número USP 5680259
Rodrigo Oliveira Salles, número USP 5964280


Teatro-Seminário 8 - Bertolt Brecht, Sr. Puntila e seu criado Matti

Em uma mesa de qualquer bar finlandês, poderíamos encontrar sr. Puntila no começo de um trajeto que vai da avareza a generosidade e depois de volta. Embriagado coleciona amores e amizades, sóbrio, encarna um proprietário amargo. Seu motorista e amigo Matti acompanha de perto esses processos e também é o mais afetado por eles.

Nessa peça Bretch discute temas recorrentes em seus trabalhos, como luta de classes e relação entre dominante e dominado, de maneira jocosa e bem humorada. Realizamos o TS a partir de um paralelo entre a relação dos principais personagens da peça com a das famílias burguesas e seus empregados. Absolutamente dependente, a família, representada pelo papai, mamãe e filhinho passa por uma verdadeira linha de montagem na qual são vestidos, alimentados, e cuidados. Se mostram totalmente alheios a esses processos, realizando-os apenas com a mediação do empregado e de forma rigida, maquinal. Estão sóbrios. Num segundo momento os criados se foram e a família, obrigada a realizar as tarefas, apresenta imensa dificuldade.

Tanto o seminário quanto a peça demonstram uma relação assimetrica e vertical, na qual os detentores dependem muito mais do que acreditam de seus empregados, que tem um papel central em suas vidas e, não compreendendo essa realidade, os tratam como coadjuvantes.

1.7.11

Pedrinho e a mídia

A cena se inicia com um assassinato, um jovem chega correndo grita “sua desgraçada!” e enforca a mulher que se encontrava no centro da cena. Em seguida a história é contextualizada em um telejornal, a mulher morta era a mãe de Pedrinho, garoto que havia sido seqüestrado na maternidade por uma mulher que o criou como filho e só descobriu quem eram seus verdadeiros pais aos 16 anos. Um repórter fora da cena conversa com Pedrinho que se diz revoltado e sedento de justiça. Na cena seguinte outro repórter na penitenciaria onde a mulher que seqüestrou Pedrinho está presa a procura para saber o que ela acha do caso, mas não a encontra e é avisado que ela fugiu durante a manhã. A cena final consiste em um abraço entre Pedrinho e a seqüestradora que ele tem como mãe.

Em “O circulo de giz caucasiano Brecht criou uma peça dentro da peça para convencer os donos legítimos do vale a deixá-lo com os que podem aproveitá-lo melhor. Na cena final da peça dentro da peça o cantor afirma que as coisas devem pertencer àqueles que cuidam bem delas. Pensando nisso buscamos mostrar uma realidade em que o objeto cuidado, que aqui é uma pessoa com sentimentos e capacidade de escolha, considerou que quem tinha “direito” sobre ele era a pessoa que o criou como filho apesar da contradição dele ser além de filho, mas também cativo, de sua mãe e seqüestradora.

Em busca de si

Para compor a cena, o grupo debateu a respeito de uma questão fundamental: qual seria a idéia central tratada por Brecht em “O Senhor Puntilla e seu criado Matti”? para além do valor cômico da peça, claro está que o dramaturgo desejava passar uma mensagem política.

Da história da relação de amizade e repulsa dúbias em permanente tensão entre um grande latifundiário e seu empregado, encenadas por Brecht, muito se pode depreender. O protagonista apresentava duas personalidades distintas, cuja passagem se dava através da bebida ou da ausência dela: Bêbado, tratava-se de um proprietário com consciência da situação de exploração a que seus empregados estavam submetidos e, mais do que isso, que se solidarizava com eles pondo-se ao seu lado. Porém, tal situação tinha um caráter extremamente fugaz e o criado Matti tinha plena consciência disso: uma vez sóbrio, Puntilla tornava-se o mais típico dos patrões, valendo-se do poder e da situação desigual de forças entre ele e seus trabalhadores para usa-los da forma mais conveniente para seus fins.

O grupo, então, pensou a questão da identidade como o tema central da peça, pensada não como uma entidade fixa, mas sim transitória e capaz de muitas variações, com muitos indivíduos cabendo na mesma pessoa. A partir dessa decisão, foi montada a cena. Tal qual na peça, a bebida foi eleita como símbolo do processo de transição de uma identidade, de uma percepção individual de si, para outras. Para representar esse processo de transição, assim como a confrontação de diferentes “eus” da mesma pessoa que não reconhecem um ao outro, o grupo concluiu que a solução cênica mais adequada seria um jogo de espelhos.

Uma das integrantes do grupo (Clarice) foi responsável por representar o sujeito detentor de inúmeras identidades, com dificuldade em se identificar com todas. Cada um dos demais membros do grupo representou um espelho, ou antes, um reflexo, um fragmento da personalidade multifacetada do personagem. Com uma garrafa na mão, Clarice se defrontou com cada uma das suas imagens, interagiu com elas, porém, incapaz de identificar-se completamente com uma por uma pela qual passava, seguia em um processo de transição, representado pela bebida.

Cada reflexo representava um estágio na transição do estado sóbrio para o bêbado, entendidos metaforicamente. Diante do primeiro reflexo, a protagonista assumia uma postura formal e rígida, enquanto se mirava. Sua imagem a acompanhava, porém isso se deu apenas até o momento em que ela decidiu tomar um gole de bebida: nesse momento, deu-se uma ruptura entre ela e a faceta mais sóbria e formal da sua identidade. A imagem, neste momento, deixou de ser um mero reflexo e adquiriu postura própria. Enquanto Clarice se tornava mais relaxada, seu reflexo mantinha uma postura de distanciamento e reprovação. Em seguida, passando pelos demais reflexos nos demais espelhos de sua identidade, ela, em cada um, fazia um teste, buscando a perfeita sintonia. Esta, entretanto, não vinha. Se em um momento inicial o espelho reproduzia suas ações, acompanhando-a na bebida, sempre chegava um momento em que se dava a ruptura. Mais bêbada e despida das convenções sociais em cada etapa, ela seguia em frente abandonando uma faceta de seu eu que já não a satisfazia e não a completava. Por fim, no ultimo reflexo, afinal a desejada sintonia foi obtida: sua imagem partilhou da sua ânsia por transmutar-se e fazer-se menos pessoa formal e racional, a medida em que se tornava mais irracional e sentimental. O clímax da cena deu-se com a fusão entre Clarice e a sua imagem: o reflexo (Alice) abandonou o espelho e juntas beberam, abraçadas. A transição, afinal, estava completa, porém, tal e qual observado na peça do Senhor Puntilla, não seria permanente.
Aline Hiane de Souza NºUSP 5902756
Ana Carolina Lima de Jesuz NºUSP 5995222
Camila Silveira Zulato NºUSP 6555188
Davidson da Silva Formigoni NºUSP 4929542
Gessimara de Sousa Fernandes NºUSP 6470163
Hélio Wicher Neto NºUSP 5163485
Ivo Paulino Soares NºUSP 6470628

  BRECHT, Bertold. O círculo de giz caucasiano. In. Brecht, B. Teatro completo 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.179-296.
Na cena apresentada em classe sobre o texto O círculo de giz caucasiano, nosso grupo tenta trazer o texto de Brecht, e principalmente a disputa das mães sobre o filho, para os dias atuais, através da encenação de uma disputa de guarda de filho entre um pai e uma mãe. 
Na cena apresentamos a disputa de guarda de um filho. Um pai e uma mãe, dispostos em lugares opostos do palco, contam vantagem listando em voz alta as coisas que consideram fundamentais para a criação de seu filho.
A mãe lista ações de caráter mais de criação, os momentos em que ela estava presente na vida do filho - as histórias que ela lia para ele dormir, a forma como ela ensinou a criança a ler e as dores que acalentou - e o pai lista as coisas que ele contribuiu financeiramente - uma viagem à Disney que patrocinou, o aluguel da casa, a bicicleta nova que ele o presenteou.

A justiça, ou o juiz foi representado como uma entidade cega, que necessita usar das leis que existem para julgar. No entanto, o juiz é humano, e sendo humano, tem sua própria moral e sua própria consciência que lateja intermitentemente, na cena representado por um ator que anda de um lado para outro freneticamente indignado com a situação, fazendo perguntas de ordem sentimental e espiritual para o juiz e para o público.
A justiça define que o pai tem a maior possibilidade de financiar a criança e por isso deve ter a sua guarda. Mesmo a mãe sabe que essa é a lei, por isso, em determinado momento, abdica da guarda do filho.
O que fica sem resposta são os questionamentos soltos da consciência, da representada no palco e da nossa própria, que nos pergunta se realmente aquilo que importa para a criação de um filho é o dinheiro, é o pagar a melhor escola, é dar um teto para a criança; e qual o papel do afeto, do soprar o “dodói” da criança quando ela cai da bicicleta, do ir às apresentações de balé e participar emocionalmente da criação de um filho.
Nós tentamos criar uma contraposição, até que bastante didática, daquilo que a justiça, ou mesmo o senso comum prega que é fundamental para a criação de um filho; e daquilo que todos nós sentimos, ao crescer e nos darmos conta de que talvez seja mais importante para nossa formação pessoal certos momentos imateriais e carinhos que vivemos, que todo o suporte financeiro que tivemos.
O nosso juiz cego - apesar de no fundo do seu âmago se questionar sobre sua própria decisão - decide pelo pai, que é o provedor da família. O juiz do Círculo de Giz caucasiano, ao contrário, estimulado pelo seu estado de embriaguez, consegue, de alguma forma, retirar a venda que lhe vestem, e de alguma forma, na forma do círculo de giz caucasiano, consegue enxergar a verdadeira mãe do bebê. Em seu estado embriagado ele atinge a uma verdade que todos sabemos; ele consegue através da proposta do jogo do Círculo de Giz caucasiano, revelar uma verdade inconveniente que a justiça muitas vezes não quer enxergar, mas que no fundo todos conhecemos intimamente.
Aline Hiane de Souza NºUSP 5902756
Ana Carolina Lima de Jesuz NºUSP 5995222
Camila Silveira Zulato NºUSP 6555188
Davidson da Silva Formigoni NºUSP 4929542
Gessimara de Sousa Fernandes NºUSP 6470163
Hélio Wicher Neto NºUSP 5163485
Ivo Paulino Soares NºUSP 6470628
A peça em tela é uma das obras mais representativas do teatro épico desenvolvido por Brecht em sua fase de maturidade. A busca incessante de seu teatro em revelar a verdadeira alienação a que somo submetidos em nosso dia a dia sob a égide do sistema capitalista é revelado nas encenações por verdadeiros “momento de despertar”, onde as contradições dos indivíduos são expostas de maneira óbvia porém não menos cruel e surpreendente. Em Brecht “a loucura de ‘carnaval’ serve apenas para revelar a verdadeira loucura do cotidiano (Dawsey, 2009). Nas palavras de Walter Benjamim o teatro de  Brecht traz o mundo em exposição para apresentar ao seu público:

Para seu público, o palco não se apresenta sob a forma de ‘tábuas que significam o mundo’ (ou seja, como um espaço mágico), e sim como uma sala de exposição, disposta num ângulo favorável. Para seu palco, o público não é mais um agregado de cobaias hipnotizadas, e sim uma assembléia de pessoas interessadas, cujas exigências ele precisa satisfazer.”

O grupo decidiu então expressar a contradição, dualidade e, porque não, hipocrisia das numerosas entrevistas de emprego de grandes empresas a que são submetidos os candidatos as suas vagas. Os personagens consistiam na entrevistadora, representante da empresa e mais quatro candidatos que formariam cada um com seu traço de personalidade, os estereótipos comumente encontrados neste tipo de acontecimento:

o candidato exemplar: aquele que possui todos os requisitos tanto de formação quanto de personalidade para ocupar o cargo;
o inocente: que acredita piamente no discurso da empresa e busca no trabalho cumprir sua “função social”;
o tímido: ou medroso, que não consegue enfrentar a situação como esperado e se refugia na sua timidez em razão da exposição provocada pelas perguntas do entrevistador
o despretensioso: figura inusitada que desdenha da “máscara” vestida pelos entrevistados e sempre diz a “verdade” quando questionado pelo entrevistador.

Inicia-se a apresentação da empresa pela entrevistadora. Que discorre sobre suas qualidade, sobre quão humana e correta são os objetivos e o ambiente de trabalho em questão. Sua ética ao lidar com seus consumidores e profissionais e, principalmente, preocupação com o meio ambiente. A ironia da história está no ramo de atividade da empresa, que é uma indústria tabagista.

Passa-se, então, para as perguntas aos entrevistados, que então, dentro do perfil traçado para cada um, respondem ou não aos questionamentos mais inusitados possíveis, como: qual seu signo?, o que faz para se divertir?, dentre outros. A busca do grupo foi realizar o contraponto do teatro encenado pelos entrevistados ao se depararem com as respostas do candidato “despretensioso”, já que eram a simples e pura verdade, comportamento que não condizia com o esperado para aquele encontro.

Com o inicio das respostas aos questionamentos, provoca-se uma situação não esperada pelo grupo. Ao perceberem que tal situação, aparentemente tão caricata, já aconteceu em suas vidas ou histórias similares já lhes foram contadas, os espectadores e integrantes do próprio grupo não conseguem evitar as risadas e é necessária uma pausa para retomar o enredo da encenação.

Após a saída dos candidatos, a entrevistadora para, então,  a declamar uma fala de Matti da peça:
"MATTI - Não quero dizer nada, falo só pra matar o tempo, pra empurrar a conversa pra frente. Quando falo com os patrões, nunca eu quero dizer nada, não tenho nenhuma opinião: não se pode admitir uma coisa dessas nos empregados." (O sr Puntila e o seu criado Matti, Parte 2 página 30)

A quebra e afastamento do envolvimento do espectador com a declamação buscou trazer à tona a quebra do encantamento necessária para a compreensão da contradição a que estamos expostos ao “atuarmos” em nosso cotidiano nas diversas situações em que somos exigidos transparecer algo que nós é exigido e a dificuldade enfrentada por aqueles que não conseguem ou não querem se adaptar ao jogo de cena que a sociedade regida pelo capital exige de todos.
Como o Sr. Puntila, em seus momentos ébrios de lucidez , ou como Matti em sua frieza e ironia ao tratar com o Sr. Puntila amável e depois o sóbrio patrão, mas mesmo assim mantendo-se inerte frente aos abusos e instabilidades de seu patrão, Brecht nos mostra e nossa encenação também tentou mostrar, que todos estamos sujeitos a dialética inerente às relações de um sistema onde um sujeito vende sua força de trabalho e outro a compra, mesmo que este não seja nada mais aquele que vende, mas em determinado momento represente o proprietário da dinheiro, aquele que tudo pode e realiza no capitalismo.

BRECHT, Bertolt. “O Senhor Puntila e seu criado Matti. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
 

30.6.11

São Paulo: amor e ódio, com Tom Zé e Dylan.

Grupo Sem Título
James Lima, número USP 5099793
Renato Abramo, número USP 4778687
Victor Martinez, número USP 7541963
Thiago Oliveira, número USP 5422010
Lia Bissera, número USP 4335432
Priscila Tavares, número USP 6428168
Verônica Deviá, número USP 5680259
Rodrigo Oliveira Salles, número USP 5964280

Teatro-Seminário 6 – Walter Benjamin, Passagens


Em “Passagens”, Walter Benjamin reúne fragmentos que tratam da cidade de Paris. Suas ruas, boutiques, os famosos boulevards, parques e galerias. Seus tipos como os flaneurs, as mulheres ricas, os grisalhos, os comerciantes e artistas. Assim como cada peça de um mosaico constrói um grande mural, vemos a construção de uma Paris por inúmeras descrições de nuances e aspectos únicos descritos no texto.

Para o teatro seminário, o grupo resolveu transpor a ideia de Benjamin para a cidade de São Paulo. Utilizando a música “Augusta, Angélica, Consolação”, de Tom Zé, quis retratar a metrópole tão amada e odiada pelos paulistanos. Além de descrever a cidade, consegue encontrar nesta a poesia, nos trechos como “Eu fui morar na Estação da Luz, porque estava tudo escuro dentro do meu coração”.

Contudo, só a música não parecia suficiente para o teatro seminário. Copiou-se então o videoclipe de Bob Dylan “Subterranean Homesick Blues”, no qual o artista mostra cartazes com palavras da música. O recurso foi transposto para a classe com a apresentação de palavras da letra da música de Tom Zé enquanto esta tocava.

Em um primeiro momento, os cartazes do grupo traziam palavras da letra de “Augusta, Angélica e Consolação”: mão, saudade, dinheiro, bobagens e maldade, por exemplo. Em seguida, porém, foram inseridas palavras que permeiam a vida do paulistano como trânsito, poluição, violência, asfalto, medo, cinema, ônibus etc.

Através deste recurso, o grupo pensou uma forma de representar a vida de quem vive na cidade, ao mesmo tempo tão dura e permeada de dificuldades, acompanhada pela poesia da canção de Tom Zé. No que concerne a linguagem utilizada, os cartazes constituem fragmentos de um todo, já que a canção é também uma visão sobre a cidade de São Paulo. Enfim, o grupo quis ressaltar a poesia encontrada, apesar de tudo, nesta vida, sempre em tom de crítica e contestação suscitadas pelos textos de Walter Benjamin.

3 pra 1

Grupo Sem Título
James Lima, número USP 5099793
Renato Abramo, número USP 4778687
Victor Martinez, número USP 7541963
Thiago Oliveira, número USP 5422010
Lia Bissera, número USP 4335432
Priscila Tavares, número USP 6428168
Verônica Deviá, número USP 5680259
Rodrigo Oliveira Salles, número USP 5964280

Teatro-Seminário 4 - Walter Benjamin, Sobre o conceito da história

Cena

Três personagens em cena. Cada um empreende uma ação diferente: um, de olhos vendados, anda para trás traçando um caminho irregular, uma linha não linear e óbvia; agacha, sobe na mesa, debruça-se, percorre todo o cenário em marcha ré até sumir do palco; outro, com um pano na cabeça, acende velas e, como em um ritual, murmura preces aos mortos; o terceiro, contorce-se e treme, sem sair do lugar, parece agonizar, lutando contra uma ameaça que parece inevitável.

Análise

Nesse dia, o grupo optou por um método diferente para compor a cena. Após uma discussão sobre as ideias presentes nas teses, decidiu-se que cada um montaria uma cena independente, sem avisar ou conversar com outro, tendo como perspectiva formar um pequeno mosaico das impressões do texto de Benjamin, composto por diferentes e minúsculos fragmentos, mas que no seu conjunto dialogariam, teriam uma força comum. Nem que só por um momento, em um lampejo.

O personagem que anda para trás contrapõe-se ao senso comum da história linear, progressiva, de uma evolução constante e inevitável das sociedades humanas. Benjamin questiona todas essas ideias. Uma história que sempre avança, que evolui, um progresso já estruturado que cabe à humanidade seguir. O personagem desempenha a atitude que Benjamin acredita que devamos ter: questionar essa evolução natural dos homens e da sua história e de “escovar a história a contrapelo”. É preciso questionar a historiografia linear e conformista, pois ela se alia a marcha triunfal daqueles que não pararam de vencer, aqueles que acreditam que progresso e barbárie são diametralmente opostos. Para Benjamin, a história deve seguir a tradição dos oprimidos, ouvir e lembrar daqueles que foram derrotados, esquecidos. Fazer uma ruptura, quebrar essa linha sempre reta e ascendente. Como faz o homem vendado que anda traçando um outro caminho.

Lembrar dos oprimidos, dos dominados, das vítimas da barbárie, que sim, está ligada ao progresso em sua marcha. Rememorar. É isso que faz o segundo personagem quando fala com seus mortos, dando voz a eles e trazendo-os para o tempo presente. Faz com que não se percam no passado, que sua existência e luta não sejam perdidas. Em um ritual que também foge às práticas dominantes, já que atualmente não se tem mais tempo para parar e lembrar; parar e contar uma história, repassar uma experiência, fazer trocas oralmente. O ritual de rememoração dá um outro sentido para aqueles que não estão mais aqui, dá-lhes um novo significado recolocando-os em uma nova situação, mostrando que: não podemos prescindir do passado para construir o presente, e que só haverá salvação, inclusive para história, quando todas as vitimas forem lembradas.

E como síntese desses dois movimentos (questionar a linearidade e progresso da história e rememoração dos oprimidos e mortos do passado) temos o terceiro personagem que está lá tanto para lembrar dos que já foram, lutando contra a opressão e o esquecimento, quanto para avisar aos presentes, que novas barbáries e destruições estão por vir. É preciso intervir, é preciso impedir essa marcha, conjuntamente, todos os oprimidos, os de hoje e ontem.

O círculo sobre o círculo de giz caucasiano

Grupo:

Felipe Salvador, Fernanda Becker, Fernanda Ticianelli, Leôncio Junior, Lize Marchini, Marcelo Campos, Thais Bessa

Texto-referência:

BRECHT, Bertolt. O circúlo de giz caucasiano. In: Brecht, B. Teatro completo 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, pp 179-296

Descrição da cena e reflexão sobre TS proposto:

A cena se inicia com o grupo se organizando em uma espécie de circulo descompromissado com sua precisão. Sentam-se os componentes do grupo nas cadeiras então dispostas, e iniciam um debate cujo tema é o que será feito para a apresentação do TS da aula em questão. A discussão busca reproduzir aquela que ocorreu pouco antes de iniciarem-se as apresentações dos TSs.

A principal proposta levantada (e reproduzida na cena), foi a de elaborar uma comparação entre o juiz Azdak que ao final da peça de Brecht deve escolher com qual das duas mulheres que se auto-atribuem o papel de mãe da criança a acriança ficará, com a conhecida história do Rei Salomão, que usa da mesma estratégia para resolver questão semelhante. A questão a ser trazida com tal comparação é justamente o diferente papel que os dois personagens, (o juiz Azdak e o Rei Salomão) desempenham na história, que seja, enquanto o juiz é uma figura pouco comprometida com a justeza de suas ações e afeito ao uso abusivo do álcool, o Rei Salomão é apresentado como homem sábio, responsável e ponderado em relação à justiça que se propõe a fazer. Entretanto, ambos tomam a mesma “sábia” decisão, na ocasião de decidir quem é a verdadeira mãe de uma criança reivindicada por duas mulheres. Uma das discussões que o grupo quis trazer era justamente esse questionamento trazido por Brecht, que coloca em xeque as noções de justiça, de sabedoria e de direitos. Também tentamos trazer para a discussão do TS alguma possibilidade de atualização da cena de Brecht.

Quando o mesmo juiz bêbado, que toma uma decisão bastante parecida com uma decisão bíblica do sábio Rei Salomão, julga um caso de abuso sexual e culpa a vítima, em razão de suas roupas e curvas, isso nos remeteu a uma atual polêmica sobre um rapaz que conta piadas num palco e fez uma piada com o estupro. Aludindo ao fato de só mulheres feias serem estupradas, e dizendo que os estupradores deveriam ganhar um abraço, muito parecido com o que está colocado na peça de Brecht, quando o agente do abuso ganha uma bonificação.

O grupo, porém, não conseguiu entrar em consenso a respeito de como seria representada tal comparação sem que soasse didática e óbvia, postura da qual parte do grupo partilhava. Neste momento surge a idéia de trazer para o palco a própria discussão que estávamos tendo, pertinente inclusive com o texto em questão, que narra uma situação em que uma peça é encenada sendo, portanto, uma peça dentro de outra peça.

Muitas vezes a própria discussão para a formulação do que será apresentado é tão rica quanto a própria apresentação( ou até mais), e nesse caso, o grupo concordou que havia espaço para a realização de um meta-TS. Com a proposta de quebrar com a estrutura da aula, separada convencionalmente em dois momentos, quebrando ao mesmo tempo com os papéis de público e “atores” de cada TS. Todos os que assistiam ao TS haviam passado pelo mesmo momento de debate e construção do que seria apresentado, e possivelmente pelos mesmos dilemas ao ter que escolher o que e como retratar os diversos aspectos dos textos propostos para os TSs em geral.

29.6.11

"Caldeirão da USP"

TS9 - noturno

Texto-referência:
BRECHT, Bertolt. O circúlo de giz caucasiano. In: Brecht, B. Teatro completo 9.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, pp 179-296

Integrantes:

Andre Castilho Pinto, Camila Gui Rosatti, Camila Moraes, Fernanda Tavares, Jorge, Juliana Antunes, Rosemeire Almeida



Descrição do Teatro-Seminário:


A cena é uma paródia de um programa de auditório, intitulada: “Caldeirão da USP”


Personagens:
- Diretora

- Apresentador

- Contrarregra/Moça das placas

- “Lombardi”

- Assistente de Palco

- Convidado/Juiz

- Pessoas da Plateia

Tudo começa com a Diretora dando ordens e orientando o público sobre como se comportar no programa de televisão. Então, com as ordens da diretora o programa tem início. O Apresentador, com todos os clichês desse tipo de programa, apresenta o “game” da noite: o “Círculo de Giz Uspiano”. Pessoas da platéia, aos pares, serão convocadas para “disputar” objetos no centro do círculo de giz (exatamente como na peça de Brecht). Porém, esses objetos representarão idéias abstratas. São os seguintes:

Uma bíblia representando a “Fé Universal”

Uma flor representando o “Amor”

Uma nota de cinqüenta reais (falsa) representando o “Poder”

E uma folha escrita “Vale nota 10” representando o “Saber”

O Convidado para ser o Juiz foi o professor, pois assim como na peça, não é simplesmente quem consegue puxar o objeto do adversário que o conquista, a ação deve ser julgada, pois muitas vezes aquele que abdica é o verdadeiro merecedor. E justamente, durante o desenrolar da cena, os participantes tiveram atitudes variadas, ora disputando com afinco o objeto ora abdicando, e o professor/juiz, de acordo com quem parecesse merecer mais o prêmio, procedeu aos “julgamentos”, inclusive dividindo o “vale nota 10” ao meio para os dois participantes que o disputaram.

Interpretação: Relação entre a cena e a peça de Brecht

Fizemos uma releitura do momento clímax da peça de Brecht, quando Grusche, a empregada, disputa Miguel com sua mãe natural Natella Abaschvíli, mulher do falecido governador, em frente ao juiz Azdak, por meio do famigerado círculo de giz.

Ao transferir o julgamento para um show de televisão, procuramos ressaltar o quanto a atividade jurídica tem de representação e espetáculo, até porque a maioria desses shows, como muitos julgamentos, funciona como um jogo de cartas marcadas espetacularizado e promovem uma simplificação grosseira de pessoas e sentimentos. Também colocamos em disputa coisas abstratas e essenciais: a Fé, o Amor, o Poder, o Saber, servindo de contraste para o suporte artificial e grotesco da encenação.

Da mesma forma, na peça de Brecht, o que estava em jogo era algo essencial: a vida de uma criança, disputada de uma forma absurda por um juiz caótico, mas contraditoriamente com um alto senso de justiça. O amor desinteressado de Grusche vence a ambição da mãe natural que estava mais interessada na herança do filho.

Por meio da paródia do programa de televisão acreditamos que foi possível causar o efeito de estranhamento e de afastamento do teatro narrativo, capaz de fazer o público refletir sobre a validade da disputa em relação aos valores disputados. E essas reflexões realmente surgiram no debate posterior à encenação. Pois de fato, diariamente, vidas são expostas e julgadas pelas várias formas da mídia, mas sem nenhum Azdak para lhes redimir.

28.6.11

O assistir televisão

Grupo Sem Título
James Lima, número USP 5099793
Renato Abramo, número USP 4778687
Victor Martinez, número USP 7541963
Thiago Oliveira, número USP 5422010
Lia Bissera, número USP 4335432
Priscila Tavares, número USP 6428168
Verônica Deviá, número USP 5680259
Rodrigo Oliveira Salles, número USP 5964280


Teatro-Seminário 2 - Geertz, Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa



Cena

Ao fundo, vemos a vista de um morro qualquer do Rio de Janeiro: avista-se outros morros, a praia, o sol. No primeiro plano, dois jovens conversam sobre banalidades: discutem sobre futebol, se irão ao jogo dessa semana, da próxima festa... Nesse momento, aproximam-se dois policiais e sem nada perguntar, rendem os dois jovens e os executam.

Próximo ato: a paisagem ao fundo é emoldurada por uma televisão, aquilo que antes era visto agora passa a ser mediado e observado através da tela do aparelho. Há um deslocamento: a platéia que antes via o morro diretamente, agora o vê a partir da televisão, junto com um casal que assiste ao noticiário. Na TV, surge um policial dando uma entrevista para a repórter narrando o ocorrido. Ele afirma que o que se passou foi uma ação policial de patrulha no morro, uma ação planejada, na qual dois suspeitos que reagiram foram mortos. O casal que assiste às notícias comenta o que vê lamentando a violência que atinge o Rio de Janeiro. Tinham planos de passar férias lá, talvez tenham que adiar, devido ao grau de criminalidade. Concordam, porém, que as mortes são algo necessário, afinal “o Rio é uma cidade linda que tem que ser salva”. Depois, conversam sobre banalidades: discutem sobre futebol, o jogo dessa semana...

Análise

O trecho do texto que nos serviu de base para a construção da cena foi: “Segundo o provérbio, cada povo ama sua própria forma de violência. A briga de galos é a reflexão balinesa sobre essa violência deles” (p.317). Tomando essa passagem como premissa e ponto de partida, nos perguntamos onde a reflexão da sociedade brasileira sobre a violência acontece? Concordando que cada povo tem uma forma de violência própria que gera sobre ele fascinação, qual é esse lugar na nossa cultura?

A briga de galos em Bali toma proporções de espetáculo, adquire um brilho que lhe difere dos demais acontecimentos, é um evento que distoa das práticas cotidianas das pessoas comuns: “o que coloca a briga de galos à parte no curso ordinário da vida, que a ergue do reino dos assuntos práticos cotidianos e a cerca com uma aura de importância maior é [...] o fato de ela fornecer um comentário metassocial [...]. É uma leitura balinesa da experiência balinesa, uma estória sobre eles que eles contam a si mesmos.” (p.315,316) Um povo que normalmente não é violento ou agressivo tolera e sacraliza um ritual onde raiva, sangue e morte compõem a dinâmica e prática do processo. A briga de galos balinesa “reúne todos os temas – selvageria animal, narcisismo machista, participação no jogo, rivalidade de status, excitação de massa, sacrifício sangrento – cuja ligação principal é o envolvimento deles com o ódio e o receio desse ódio” (p.317).

Analisando esses trechos e projetando-os sobre o Brasil, constatamos que o lugar, por excelência, onde a violência aparece, sob uma forma espetucalrizada, fetichizada e socialmente aceita é na televisão. As cenas, acontecimentos que lá são veiculados são tolerados e creditados. Há um ritual que envolve o assistir televisão que pressupõe uma série de acordos e determinações implícitas para aqueles que compartilham esse momento; por mais que o que esteja sendo dito lá não corresponda necessariamente com os acontecimentos reais do fatos. A televisão se torna o veículo de imagens e histórias revestidas de certa superioridade e mística em relação aos fatos que vivenciamos no dia-a-dia. A violência aparece na forma de espetáculo e por isso é admitida, até aprovada, quase sacralizada. Não mostra a realidade, a TV faz a sua leitura dela a partir de uma perspectiva que é passada para milhões de pessoas que vêem essas cenas aceitando-as como particular. Podem até saber que o que ela mostra não é o que ocorre literalmente, é uma versão, um conto, um teatro. E por isso mesmo as aceitamos, decidimos participar, consentimos com o espetáculo. São leituras brasileiras das experiências brasileiras, estórias nossas que contamos a nós mesmos.
As babás de Puntila
Grupo Potlachn e Grupo Antes tarde do que nunca

Pensando na relação senhor-criado, representado com crítica e humor na obra de Brecht Sr. Puntila e seu Criado Matti, o grupo Potlach construiu a narrativa de sua apresentação, baseada em elementos da realidade brasileira atual. Duas famílias burguesas brasileiras vão passar férias na Costa do Sauípe e levam consigo as babás dos filhos. Duas histórias acontecem em paralelo – os pais, que conversam de suas vidas luxuosas, de seus investimentos e de suas preocupações, e as babás, brincando e cuidando das crianças. Em determinado momento chega uma fotógrafa, os pais chamam as crianças para fazer uma foto em família.

A relação do senhor Puntila com seu criado Matti é dupla – nos momentos de embriaguez é dócil, compreensivo e frágil, nos momentos de sobriedade é dura e ríspida. Por um lado, Puntila é absolutamente irresponsável e dependente de seu criado, por outro é ríspido e arrogante, mantendo a distância entre as classes. Dessas duas imagens podemos tirar questões para se pensar tais relações na nossa realidade. Em nossa apresentação elegemos a figura da babá para materializar esses elementos. A relação da criança com a babá, embora seja uma relação senhor-criado, é uma relação mais afetiva e de dependência. A relação da babá com os pais é, por sua vez, ríspida e impessoal.

Podemos fazer um paralelo dessas duas imagens com dois momentos da história do senhor e do escravo, contada por Hegel na Fenomenologia do Espírito. Dois homens entraram em combate. Um deles, por sua força e coragem, venceu a luta e, ao invés de sacrificar seu oponente, resolveu poupá-lo e fazê-lo de si escravo. A partir de então o senhor já não fazia nada. O senhor não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. A relação de dependência do senhor para com seu escravo era tão grande que o escravo liberta-se pelo conhecimento. O aprendizado da privação e do seu trabalho no mundo o faz livre.

A figura da babá leva ao limite essa relação de dependência do senhor ao seu criado. A mãe, que contratou a babá, já pouco pode fazer. Sua criança vai pegando os sotaques, trejeitos e manias da babá, que passa a maior parte do tempo com os filhos, enquanto a mãe trabalha. Na babá encontramos diversos elementos presentes na relação do Senhor Puntila Com Matti, por isso a elegemos como figura central de nossa narrativa.




Alunos: Emerson Rios Viana, Marcus Vinicius Santos, Beatriz Bonaldi, Letícia Neumann, Manuella Alves, Priscilla Cardoso, Maria Fernanda Sampaio, Camila Rillo.



TS5 - BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. In: BENJAMIN, W. Obras

escolhidas II: rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 9-70.


Cena: Fragmentos

Cenário: 4 cadeiras, Lousa.

Personagens: 5

Descrição e comentário da cena:

Quatro pessoas na frente da classe lêem em voz alta, de forma desordenada e simultânea, diversas palavras e pequenas expressões retiradas de ''Rua de mão única''. Em seguida lêem as mesmas palavras, agora uma por uma, alternadamente. Então cada um dos quatro lê uma frase completa, retirada do texto, da qual se retirou uma ou mais palavras anteriormente ditas. Os quatro se levantam, saem do palco onde fica a lousa e sentam-se nas carteiras com os demais estudantes.

Uma outra personagem se levanta, sobe ao palco e escreve silenciosamente a seguinte frase: " A história não deixa margem para possíveis histórias. Os cadáveres já estão enterrados sob as pedras, assim como os sonhos.Lá jazem também sua pobreza e suas manhãs."

O principal intuito da cena foi abordar o aspecto fragmentário do texto de Benjamin. O foco da cena foi o processo de leitura do livro e suas impressões para cada um do grupo. A idéia foi ''manipular'' os fragmentos de várias maneiras: Partimos das palavras e pequenas expressões que cada um dos integrantes, em sua leitura, julgou serem emblemáticas, como por exemplo: possíveis histórias, caderno de notas, pobreza não é desordem, cadáver, pedras, manhã, história, etc.A partir daí, dizê-las aleatoriamente, em voz alta e de maneira caótica teve como intenção criar uma analogia com os percursos de leitura de Rua de Mão Única. Nessa leitura, as palavras – que vão aparecendo dentro de fragmentos curtos e altamente condensados – podem ser também pensadas como fragmentos que vão saltando à vista, e cada percurso de leitura reterá diferentes palavras-fragmentos carregadas de mais ou menos sentido para quem as lê.

Em seguida, à medida em que as palavras vão sendo ditas sucessivamente, e não mais simultâneamente, adquirem sentidos mais nítidos, em uma analogia com a organização e à significação que paulatinamente vai se dando à leitura.

A seguir, passa-se a manipular determinadas frases emblemáticas de alguns fragmentos – segundo as leituras pessoais - também pensadas como fragmentos em si, como por exemplo: Não deixe nenhum pensamento passar incógnito e mantenha seu caderno de notas tão rigorosamente quanto a autoridade constituída mantém o registro de estrangeiros. (pág. 31). Experimentando assim os elementos que para cada leitor pareceram relevantes em diversos percursos que a leitura de ''Rua de mão única'' permite. Além disso, é possível pensar que as diferentes interconexões entre esses elementos produzem significados diversos, para além do texto.

Quando a 5a personagem entra em cena e silenciosamente escreve a frase citada na lousa, quis-se brincar com a antítese de tudo que se propôs até então. Em tom professoral, usando-se da escrita e não da fluidez da oralidade, a personagem escreve – usando as mesmas palavras-fragmentos usadas anteriormente – uma frase categórica e de conteúdo conservador. Ao invés de suscitar diversas interpretações possíveis do texto , e propondo uma analogia com as interpretações da história, os fragmentos são usados para consolidar uma posição unívoca dos fatos: ''A história não deixa margem para possíveis histórias''.

27.6.11

Onde està a loucura?

TS 8 – noturno - “Sr Puntilla”


Grupo do Riso: integrantes

Andre Castilho Pinto, Camila Gui Rosatti, Camila Moraes, Fernanda Tavares, Jorge, Juliana Antunes,Rosemeire Almeida


Texto de referência:

BRECHT, B. O Sr. Puntila e seu criado Matti. In: Teatro completo 6. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 171 - 266



Descrição do Teatro-Seminário:

Duas pessoas, em frente à sala, lêem ou interpretam, respectivamente, trechos do discurso de Benjamim Franklin “Tempo é dinheiro” e o poema de Carlos Drummond de Andrade “Disquisição da Loucura”. Revezando trechos dos textos, a pessoa que interpreta Drummond tem uma postura corporal despachada e lânguida, brinca com as palavras, gesticula, ri. A pessoa que lê Benjamin Franklin tem uma postura corporal séria e impositiva, como num discurso político ou religioso. Enquanto essa cena é interpretada, três outras pessoas circulam entre os espectadores, interagindo com eles da seguinte maneira: quando é lido o discurso, cumprimentam as pessoas formalmente; quando o poema é recitado, abraçam-nas afetuosamente. A cena acaba com o final da leitura dos textos.

Trechos Lidos:

D. Quixote de Portinari

XI - Disquisição da Loucura

"Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo."

Carlos Drummond de Andrade

“Lembra-te que tempo é dinheiro; aquele que com seu trabalho pode ganhar dez xelins ao dia e vagabundeia metade do dia, ou fica deitado em seu quarto, não deve, mesmo que gaste apenas seis pence para se divertir, contabilizar só essa despesa; na verdade gastou, ou melhor, jogou fora, cinco xelins a mais.

Lembra-te que crédito é dinheiro. Se alguém me deixa ficar com seu dinheiro depois da data do vencimento, está me entregando os juros ou tudo quanto nesse intervalo de tempo ele tiver rendido para mim. Isso atinge uma soma considerável se a pessoa tem bom crédito e dele faz bom uso.

Lembra-te que o dinheiro é procriador por natureza e fértil. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seus rebentos podem gerar ainda mais, e assim por diante. Cinco xelins investidos são seis, reinvestidos são sete xelins e três pence, e assim por diante, até se tornarem cem libras esterlinas. Quanto mais dinheiro houver, mais produzirá ao ser investido, de sorte que os lucros crescem cada vez mais rápido. Quem estraga uma moeda de cinco xelins,assassina (!) tudo o que com ela poderia ser produzido: pilhas inteiras de libras esterlinas.

Lembra-te que – como diz o ditado – um bom pagador é senhor da bolsa alheia. Quem é conhecido por pagar pontualmente na data combinada pode a qualquer momento pedir emprestado todo o dinheiro que seus amigos não gastam.

Benjamin Franklin

Interpretação: Relação entre a cena e a peça de Brecht

Buscamos, através da cena, estabelecer uma dualidade semelhante a que é expressa pelo personagem Puntila. Quando sóbrio é o respeitável latifundiário e senhor de negócios; embriagado, é espontâneo, excêntrico e alegre, “quase um homem” na expressão de Matti. Quando sóbrio, reveste-se dos padrões de status e observa as normas sociais com afinco, a ponto de arranjar um casamento para a filha de acordo com essas normas; Quando embriagado, propõe casamento a todas as moças da vila, mostrando assim que as convenções sociais não devem submeter a liberdade e o desejo de vivenciar experiências reais.

Na cena, as convenções e normas foram representadas pelo texto de B. Franklin, bem como a postura séria do leitor e os cumprimentos formais à plateia; já a liberdade e a espontaneidade foram representadas pela interpretação do poema de Drummond, a interpretação expressiva da leitora e os abraços afetuosos em pessoas da plateia.

Procuramos, dessa forma, enriquecer o jogo de dualidades presentes na peça: convenções/liberdade; seriedade/loucura; estrutura/communitas; que em Brecht encontra sua expressão no jogo complexo entre sobriedade/embriaguês, e que buscamos expressar sob o signo da prosa/poesia e da formalidade/informalidade, até porque também entendemos que esses mecanismos duais também estão muito presentes no nosso caráter e no nossoethos contemporâneo.

Porém, também tentamos mostrar que a dualidade não se dá num esquema simples e maniqueísta de claro/escuro, e os comentários feitos por colegas e professor na sala de aula foram também nesse sentido.

Há momentos de iluminação na loucura, e o próprio poema de Drummond mostra isso com a expressão “louco de juízo”, nesse poema que também reflete sobre um dos mais famosos e luminosos loucos da literatura universal: D. Quixote. E também há flashes de nonsense e absurdo nos momentos de maior sisudez, como no seguinte trecho do famoso discurso do Tempo é Dinheiro: “Quem estraga uma moeda de cinco xelins, assassina (!) tudo o que com ela poderia ser produzido”. Ora, como considerar a seriedade de uma expressão fatalista como essa?

Também a peça de Brecht mostra isso de maneira reveladora, principalmente quando o Puntila embriagado age e fala como alguém que tem paixão pela vida e valoriza as pessoas pelos que elas são e não pelo que representam socialmente.

Enfim as manifestações da embriaguez e da loucura, se olhados com atenção, podem revelar o que a estrutura social se esforça por disfarçar e esconder: em primeiro lugar, que o mundo é muito mais complexo do que nos disseram, e em segundo lugar, que o olhar convencional não é capaz de mostrar todo horror e beleza que o mundo de fato possui.