26.1.10

TS-Final - A máquina - Cena de rua ou cena na rua?


video

Um presentinho para todos que partilharam conosco o inesquicível 2º semestre de 2009.
Obs.: O vídeo não mostra o fim, por que será?

19.12.09

A sala é nossa

Descrição: Cena começa com todos os alunos (inclusive o professor) do lado de fora da sala. Dentro ficam apenas os organizadores do TS. São distribuídos “salvos-condutos” para algumas pessoas que estão fora da sala, além disso, é passada uma lista para ser assinada. Aos poucos, um de cada vez, um colega da turma é chamado para entrar na sala. Ao entrar ele se depara com regras escritas na lousa, tais como: “É proibido respirar”, ou, “É proibido discordar das regras”. Na outra lousa está escrito: “Somos os donos da sala!”. O colega é conduzido para dentro de um círculo formado por várias cadeiras empilhadas. Os organizadores do TS, ou donos da sala, adotam uma postura ríspida e grosseira – quem ri é repreendido. Cada novo membro que entra é conduzido para dentro do círculo de cadeiras até que todo círculo fique preenchido e todos tenham entrado na sala. Nesse momento, os donos da sala pedem para que os alunos façam algumas ações: “Pule”, “Vamos dar uma volta pela sala”, “Abrace-o”. Um dos donos desamarra o cadarço de um colega e pede para que outra pessoa o amarre. Nesse momento a tensão aumenta e os colegas presos no círculo começam a gritar para que o tênis não seja amarrado. A todo momento os donos da sala reiteram sua posição de “donos do local”, tal atitude é prontamente reprimida pelos enclausurados. Um último pedido é feito: pede-se para um rapaz que este dê um soco no professor. Ocorre um alvoroço entre quem está dentro do círculo, após alguns minutos de negociação o rapaz nega o pedido. O pessoal que estava dentro do círculo desmonta a pilha de cadeiras e começa a sair, gritando que são maioria.

Análise: O intuito do TS foi demonstrar a relação entre a propriedade privada sobre a terra (discutida em alguns trechos do texto) e a posse da sala pelo nosso grupo. O círculo de carteiras foi um modo de demarcar o espaço que eles poderiam utilizar: tal como o círculo de giz traçado, o círculo erguido com carteiras era um espaço de conflito, negociação e decisão. As ordens dadas eram uma forma de testar os limites da sala em relação à situação artificial de dominação. Porém, o comportamento da sala fugiu daquilo que havíamos planejado – pensamos na possibilidade de que houvesse algum tipo de êxtase e conflito, mas não dá forma efusiva que ocorreu. No momento de maior tensão (a proposta do soco) o círculo foi rompido e todos se manifestaram contrariamente à ordem pré-estabelecida.  

Texto de referência: BRECHT, B. O círculo de giz caucasiano. In: Teatro Completo 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p. 179-296.
Nome do grupo: Grupo Harlequin
Participantes do TS: Marina Mazze, Jacqueline Teixeira, Yuri Bassichetto, Letícia Shimoda, Rodrigo Chiquetto, Fernanda Squariz, Ana Beatriz, Isabel Mesquita, Gil Alvarenga, Alvaro Kanasiro, Luiza Weber

18.12.09

Aqui você decide...

Em uma releitura da disputa pela maternidade do herdeiro, apresentada em "O Círculo do Giz Caucasiano", o grupo explorou o controle da mídia na sociedade contemporânea e a ideia de ajustar o foco da ação na direção do que se encontra esquecido. Tal procedimento evoca o modo benjaminiano de abordagem dos acontecimentos históricos, bem como o conceito brechtiano do teatro como o que está à margem.

A figura do idoso tece um diálogo com a situação da criança disputada: ambos se encontram na condição de desprotegidos, além de representarem os momentos de liminaridade da condição humana. Contudo, a situação colocada apresenta uma inversão, pois, duas famílias disputam a ausência do velho.

Sobre a disputa em si, vale ressaltar que faz referência direta aos programas direcionados à “massa”. Em outras palavras, o estúdio se transforma em palco para a banalização das relações humanas – em busca compulsiva por audiência. A situação criada ganha toques burlescos no momento em que a produção avisa o apresentador que os “convidados” não estarão presentes. Dois homens são escolhinhos para representarem os filhos do “pobre senhor” – este que, nada mais é que um anônimo trazido pela correnteza. Este personagem, colocado arbitrariamente no palco, é marcado pela impossibilidade de qualquer tipo de comunicação.

O quadro montado só se desfaz ao fim do programa, quando o “garoto propaganda” dos cosméticos decide arbitrariamente qual será o felizardo que levará o senhor para casa. Nesse instante, da mesma forma que nos programas tradicionais, todos reproduzem a dança desempenhada pelos animadores de auditório. Dessa maneira a atenção é desviada pela música, junto à desordem no palco. Os telespectadores, antes envolvidos, no fim da cena encontram-se entregues aos sonhos; domínio de conhecimento tão rico a Walter Benjamin. O entorpecimento abole a possibilidade de reflexão consciente sobre o que foi apresentado, deixando um vazio a ser preenchido pela próxima manchete.

Texto de referência: BRECHT, B.O. O círculo de giz caucasiano . In: Teatro Completo 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.179-296.

Nome do grupo:A imagem de hoje é...

Participantes do TS:Leandro Paixão, Rodolfo Chapchap, Tulio Bucchioni, Marina Finicelli, Victor Ribeiro, Maiara Beckrich, Bruno Puccinelli Fernanda Rodrigues, Carlos Alves, Diogo Soares, Eduardo, Marília

16.12.09

Fogo no texto


Uma roda de corpos seguraram o xerox de W. Benjamin e, com a luz apagada, após um certo suspense, começaram a rasgá-lo.

Logo em seguida, através do uso de um isqueiro, ateamos fogo e transformamos em cinzas, para a indignação de parte dos alunos-platéia-comentadores, que exprimiram frases, como "não acredito!!!".

Mas, o texto, não simbolizava propriamente o que ele de fato continha... o fogo queimara o progresso.

TS: 04
Apresentação: Último Grupo.
Texto de referência: BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história”. In: ________. “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura”. Obras Escolhidas, volume I. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Data de postagem: 16/12/2009
Nome do grupo: Grupo Grupo
Participantes do TS: Alexandre F. Ribeiro, Aline Camargo, Andreas Guimaraes, Bianca Boggiani Cruz, Edmur, Felipe, Felix Toro, Flávia Sztutman, Paulo Futagawa
Imagem: sxc.hu

12.12.09

TS8 - Metamorphosis



Descrição:
Sr. Puntilla entra e senta-se em uma mesa. Num dado momento, empregados passam a entrar na sala, um por vez, para indagá-lo sobre as tarefas domésticas. Ele se recusa a responder e se irrita e, a cada resposta negativa, os criados vão se transformando em animais. Quando todos os empregados viram animais, uma valsa é entoada e a sala transforma-se em um baile. Neste instante, Puntilla, que possuí uma caneca na qual está escrito “Boa idéia”, começa a beber e a interagir com os animais. Os animais convidam as pessoas da platéia para dançar. O Sr. Puntilla também dança acompanhando-os. Minutos depois entra em cena uma pessoa que o repreende, lembrando-o que é hora do almoço. Sr. Puntilla continua dançando até que uma empregada, que tinha se transformado em galinha, volta ao normal e lembra novamente ao chefe que é hora do almoço. Este, então, volta a si, ordenando que todos saiam da sala e tragam o almoço, de maneira brusca. Os empregados também voltam a si, reúnem-se em um canto e chamam-no de “esse cavalo...”, retirando-se em seguida. Um breve momento de silêncio se rompe com o grito de Puntilla bradando pelo almoço e uma criada entra atordoada, com o almoço, pedindo desculpas pelo atraso, indo rapidamente embora. Puntila reza, e depois devora a comida de modo animalesco, tal qual um porco, ou um cavalo.
Análise:
Um dos traços mais significativos que, a nosso ver, permeiam toda a história do “Sr. Puntilla e seu criado Matti”, é a relação entre “natureza” e “civilização”, colocada pela ótica da relação entre “animal” e “humano”. Quando Puntilla está sóbrio, ele compara os criados a animais. Mas, quando bebe, ele vê os criados como humanos e seus pares como animais, por exemplo, quando chama o Attaché de “gafanhoto de fraque”.
Esse mesmo mecanismo de oposição pode ser encontrado quando o texto narra o estado de embriaguês e de sobriedade: quando Puntilla bebe, ele tem um lampejo de lucidez, ao passo que, quando sóbrio, Puntilla se mostra totalmente embriagado por sua posição de senhor.
A figura de Matti é interessante, pois é sempre ele que chama todos para o mundo “real”, quando Puntilla está embriagado. Quisemos manter os empregados como animais mesmo durante a bebedeira de Puntilla para mostrarmos que, por mais que o Puntilla diga, neste momento, que são todos iguais, eles são, na verdade, diferentes, e voltarão cada qual para o seu lugar quando o senhor estiver sóbrio.


Texto de referência: BRECHT, B.O. Sr. Puntila e seu criado Matti. In: Teatro Completo 8. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.11-120.
Nome do grupo:Grupo Harlequin
Participantes do TS: Marina Mazze, Jacqueline Teixeira, Yuri Bassichetto, Letícia Shimoda, Rodrigo Chiquetto, Fernanda Squariz, Ana Beatriz, Isabel Mesquita, Gil Alvarenga, Alvaro Kanasiro, Luiza Weber

10.12.09

Segue o mestre


Postado por Aline Camargo

Colocamo-nos em um círculo, cada um independente do outro (ora voltado para dentro do círculo, ora pra fora), uns não podiam ver e logo se percebia que alguns não falavam.

Um de nós começou um gesto qualquer, estranho a todos. Sem falar nada, o indivíduo primeiro já se pôs a transmitir o movimento ao sujeito mais próximo. Este, não se sabe o porquê, repete o que vê, e assim permanecem sem nenhuma palavra até que, então, o segundo indivíduo passa também propagar o gesto.

Diferentemente do seu aprendizado, põe-se a descrever verbalmente o gesto induzindo e conduzindo a movimentação do ser vizinho. Este vizinho foi o “convidado-invasor”, estudante que não pertencia ao grupo, e que durante a encenação foi deixado de lado, como se não estivesse lá. Mesmo assim, para se inserir no grupo começou por si a esboçar o gesto em questão.

O terceiro indivíduo, além de ouvir passo a passo sobre como executar o movimento, não deixa de vê-lo, tendo a compreensão do todo. E isto se deu entre todos os outros participantes do grupo: perceber o gesto, recebê-lo e transmiti-lo de alguma forma.

Vale destacar a experiência de percorrer todo esse caminho quando um dos nossos sentidos está anulado, especialmente a visão.

Intromissão direta no corpo, um dos participantes está vendado, tem as mãos estendidas e o gesto é praticamente modelado em seus dedos, mas não ganha ritmo, autonomia, só o tato não é suficiente, todos os integrantes do grupo de debruçam sobre o ser-cego na expectativa que este domine o movimento. Segue a narração do gesto:

- Estenda as mãos com as palmas para cima. Junte-as pela lateral do mindinho. Agora, dedo a dedo vá fechando-as. Comece pelo dedão esquerdo até o direito. Quando fechar todos os dedos, abra-os da mesma forma, só que no sentido contrário, do dedão direito ao esquerdo. O movimento deve ser continuo, como uma onda, um dedo induz o movimento do outro, como se existisse uma membrana que os unisse. Exercite até que te pareça natural.

TS: 03
Apresentação: Último Grupo.
Texto de referência: MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo. In Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
_____________. Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, de “eu”. In Sociologia e antropologia . São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

Data de postagem: 10/12/2009
Nome do grupo: Grupo Grupo
Participantes do TS: Alexandre F. Ribeiro, Aline Camargo, Andreas Guimaraes, Bianca Boggiani Cruz, Edmur, Felipe, Felix Toro, Flávia Sztutman, Paulo Futagawa

Imagem: Releitura.wordpress

Na rotina dos bares


Cena 1

Dois amigos de infância conversam sobre seus planos no futuro. Um deles afirma que irá prestar vestibular, pois precisa estudar, se formar e ganhar dinheiro.

O outro, inconformado, diz que ele não deve se vender, que ele não deve abrir mão de seus sonhos, que ele não deve sucumbir às exigência de um mercado capitalista, uma sociedade que só se interessa por dinheiro, em um discurso recheado de idéias, quase utópico.

Enquanto conversam, comentam sobre uma agressão envolvendo torcedores de um time de futebol, e concordam que ‘playboys’ devem apanhar mesmo. Eles prometem fidelidade um ao outro e nunca trais seus ideais.

Ao lado da dupla de protagonistas, um grupo de pessoas representa o coro que endossa o comportamento da dupla (batendo palmas) ou reprime (vaiando) seus posicionamentos.

Cena 2

Após algum tempo, o amigo que iria prestar vestibular encontra aquele que não o incentivou a entrar na faculdade, ele estava bêbado em um bar, acabara de ser aprovado no curso de Direito.

O amigo fica um tanto chocado ao vê-lo fazendo exatamente o contrário do que havia prometido anos antes. Bêbado, o amigo aprovado no vestibular, ameniza o discurso do outro, afinal, agora ele poderia ajudá-lo, nada havia mudado entre eles.

O antigo coro, nesta segunda fase, se transforma nos amigos de bar do protagonista recém-aprovado no vestibular.

TS: 08
Apresentação: Último Grupo.
Texto de referência: BRECHT, B.O. Sr. Puntila e seu criado Matti. In: Teatro Completo 8. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.11-120.
Data de postagem: 10/12/2009
Nome do grupo:Grupo Grupo
Participantes do TS: Alexandre F. Ribeiro, Aline Camargo, Andreas Guimaraes, Bianca Boggiani Cruz, Edmur, Felipe, Felix Toro, Flávia Sztutman, Paulo Futagawa

9.12.09

Louco é quem me diz

A cena começava com todos os integrantes do grupo lado a lado, braços entrelaçados, como se estivessem de alguma maneira presos uns aos outros. A pessoa do meio bebe de uma garrafa algo que seria como o àcool de Puntilla na peça de Brecht e se liberta da corrente cantando, como se estivesse bêbada: “dizem que sou louco”, parte da música Balada do louco dos mutantes. Assim as pessoas sucessivamente bebem também e vão se libertando, continuando a música: “por eu ser assim, se eu sou muito louco, por eu ser feliz. Mais louco é quem me diz que não é feliz. Não é feliz” até que todos se libertam e juntos cantam o refrão: “eu juro que é melhor, não ser um normal. Se posso pensar que deus sou eu e .. Brrrrrrr”

A cena foi pensada com base no personagem Puntilla na peça “Sr. Puntilla e seu criado Matti”. A cena traz a questão de que a bebida pode ser uma maneira de se desamarrar de certas convenções sociais. Partimos da idéia de que, ao beber, não nos transformamos em outra pessoa, mas relaxamos aquilo que nos faz controlar em face do que os outros esperam de comportamento, trazendo a tona partes da nossa própria personalidade que normalmente reprimimos. Não é por acaso que a bebida está fortemente atrelada a sua função social em momentos de sociabilidade. Também entra em questão o que chamamos de loucura. Como somos levados a pensar durante a leitura da peça: qual afinal é o verdadeiro senhor Puntilla? Ele não deixa de ser patrão mesmo quando bêbado, mas seu comportamento e suas atitudes enquanto tal mudam completamente nos momentos de loucura e de sobriedade. O personagem chega a se referir aos seus momentos de sobriedade como momentos de lucidez insuportáveis, como recaídas. Isso nos leva a pensar, tal como Bejamin sugere, o que seria o normal: o estado de loucura ou de sobriedade? Ou melhor: não seria o estado de loucura, o estado da maior lucidez? É a isso que se refere a letra da música escolhida pelo grupo para trazer a questão para a cena. No referimos a uma loucura que está às margens, à loucura que rompe com o socialmente estabelecido, que sabe se referir a sua sobriedade pois está em uma relação dialética com ela e que assim torna evidente as contradições de um mundo loucamente sóbrio.




TS8
TEXTO: BRECHT, B.O. Sr. Puntila e seu criado Matti. In: Teatro Completo 8. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.11-120.
Nome do Grupo: Grupo
Grupo: Ana Catarina Romitelli, Nathalia Capellini de Oliveira, Renata Veloso Guimarães, Yana Lumi Fujita, Felipe Mahlmeister Ribeiro, Mateus F. Stelini, Guilherme Leon, Breno Benedykt

TS8 - Bar do Oz

A cena se passa no “Bar do Oz” onde a barwoman prepara animadamente drinks. Entram saltitando três personagens de braços dados que logo pedem suas bebidas à solícita mulher. O primeiro, de forma blasé, pede um pouco de sentimento. O segundo, tímido e em baixo tom, pede uma dose de catuaba, com energético e coragem. A barwoman diz animadamente que esta bebida tem de sobra. O último pede, abobalhado, ‘alguma coisa que lhe deixe esperto’. Aos poucos os personagens vão ganhando as formas de suas bebidas e sentem-se bem.

O que bebera coragem anima-se, então, a conversar com uma moça que havia acabado de ser deixada sozinha pelo namorado. Ela não parece muito interessada, mas conversa com o rapaz alertando-o que seu namorado ficará irritado quando voltar. Mas nada abala a coragem do rapaz. Quando o namorado volta, os dois rapazes entram numa discussão. Aos poucos, o que bebera coragem vai se encolhendo e desiste da briga. O que havia bebido sentimento se aproxima de uma mulher que pede ajuda para comprar uma bebida para seu recém-nascido filho. Muito carinhoso, o rapaz compra a bebida e a oferece para a mulher, mas logo perde a paciência e diz que se ela quiser mais deve se virar pra conseguir.

Enfim, o que bebera ‘esperteza’ se aproxima para afastar a briga de duas mulheres que disputam a posse de um celular. Demonstrando sabedoria, o rapaz começa a contar a história do Rei Salomão que havia resolvido a disputa entre duas mulheres quanto à guarda de um bebê. Quando vai terminar a história, se esquece de seu fim. As duas moças o deixam falando sozinho e seguem na sua discussão sobre o celular.

Fim da cena.

Reflexão

No interior do grupo, muito discutimos sobre cultura e natureza e como algumas convenções sociais têm o poder de afrouxar as amarras. A bebida alcoólica, elemento simbólico, escolhido por Brecht foi selecionado pelo grupo para trazer esse elemento à discussão. Quem era Puntila? O livre e igualitário bêbado consciente, ou o autoritário torrão detentor de terras? Chegamos a um apontamento, não podemos chamá-lo de conclusão, Puntila dentro de seus deslizes e “desequilíbrios” era um, pois o que a bebedeira pode ser encarada como um flash, ao longo do tempo passa a ser um contínuo. Em que corda bamba oscilamos nós, não tão distintos do personagem?

A criação da cena foi um grande desafio, discussões, discordâncias – crise. Mas, como toda crise, aprendemos muito e acreditamos, ao fim, termos realizado um bom trabalho.

Texto de referência: BRECHT, B.O. Sr. Puntila e seu criado Matti. In: Teatro Completo 8. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.11-120.

Nome do grupo: Beije a mim Brecht

Participantes do TS: Eduardo, Maiara Beckrich, Vitor, Bruno Puccinelli, Alciana Paulino, Cris, Priscilla, Carlos, Fernanda.

TS7 - Mortos à venda

Inicialmente imaginamos como tentar passar para uma cena curta apenas algo de apreendido da leitura de 'Mãe Coragem...'. Uma das primeiras dificuldades foi tentar não pensar nas cenas do texto de Brecht, mas uma leitura mais livre, geral e que tentasse abarcar outros ópicos já vistos na disciplina.

Uma primeira ideia foi pensar a centralidade de alguns itens do texto, tais como a carroça de mãe coragem - a adotamos como elemento simbólico. Alguns personagens também pareceram estar em destaque no texto, apesar de sua posição um tanto contraditória e/ou irônica, afinal, pra que serve um cozinheiro ou um religioso numa guerra? As atitudes de mãe coragem, que vivia da guerra enquanto perdia seus filhos, nos pareceram trazer uma contradição, tal como as inserções musicais das cenas. Da mesma maneira tentamos trazer isso à cena.

A cena: A cena se inicia com a entrada da carroça sendo carregada por uma rapaz; a carroça é formada por duas pessoas que fazem as vezes de estrutura da mesma e leva um cadáver na boleia. Ao chegar no meio do espaço, o rapaz que traz a carroça grita 'mortos!', despeja o corpo no chão e sai de cena. Em seguida a mesma carroça surge sendo levada por outra pessoa, uma garota, que vem retirar o corpo do chão e leva o cadáver embora; o espaço cênico está vazio.

Logo em seguida, mais uma entrada da carroça, a mesma, levada por outra pessoa, carregada com o cadáver de outrora. Dessa vez, no entanto, que leva a carroça oferece mortos para a venda; surge uma mulher, o Cozinheiro, que avalia se vale a pena comprar aquele corpo, se está em bom estado, não muito duro, etc. Resolve adquirir o produto e deixa-o disposto sobre a mesa. Irá iniciar o preparo da comida, cujo prato principal será o corpo morto, quando percebe que falta alguns ingredientes, deixando a cena. Vemos tão somente o corpo estendido na mesa do espaço cênico.

Entra uma mulher, o Capelão, e posta-se em frente ao corpo. Dirigindo-se ao morto diz: 'Hei, não quer comprar um espaço no céu?' Sem resposta. Novamente diz: 'Hei você, não quer comprar uma vaguinha no céu? É baratinho...' De repente o cadáver abre os olhos, pela primeira vez em cena e surpreso e pego por um estranhamento, levanta e olha em direção à plateia e responde: 'Eu, comprar uma vaga no céu? Quanto é?' Ao que o capelão responde: 'São duzentos mil, baratinho, é pegar ou largar!' Então o cadáver: 'Duzentos mil!!?? Não faz mais barato?' Capelão: 'Não, é pegar ou largar!' Por fim, o cadáver: 'Então não quero!' E, fechando os olhos novamente, deixa-se cair de volta à mesa desacordado. O capelão sai.

Entra um grupo maior de pessoas que se reúnem em volta do corpo como a fazer uma 'oração' em sua homenagem. Dão-se as mãos, dizem palavras incompreensíveis num crescendo das vozes e depois começam a conversar entre si, como um grupo de pessoas distintas, num espaço destinado a elas, como uma vernissage ou lugar parecido. Comem petiscos, todos retirados do próprio corpo morto disposto sobre a mesa. Enquanto conversam, vão degustando o cadáver servido. Saem aos poucos da cena. Resta apenas o corpo estendido na mesa. Fim da cena.

Reflexão: Uma primeira intenção ao elaborar a cena foi tentar trabalhar alguns elementos da peça de Brecht sem necessariamente copiar trechos. Também pensamos na questão do estranhamento, como proposto pelo autor, pelo texto de Benjamin lido na aula anterior e como constante na peça. Portanto, tentamos não trazer necessariamente mãe coragem para a encenação, mas algo do contexto cênico proposto pelo autor no qual se insere a personagem e os outros elementos centrais da peça. Afinal, a que serve um cozinheiro para fazer um cadáver? E que poderes possui um capelão que consegue 'reavivar' um cadáver ao oferecer-lhe o céu?

Aliás, apesar da onipresença na encenação da carroça, parte do corpo e do meio de vida de mãe coragem, o mais presente certamente é o corpo morto e a ideia de morte reapropriada o tempo todo: o corpo jogado fora, reaproveitado, vendido, cozinhado, tentando ser salvo, 'velado', 'orado' e, finalmente, comido por seus iguais, ou não tão iguais assim? Durante a discussão em sala, após a apresentação, justamente foi levantado que o morto não tinha paz nunca, nem na presença do capelão.

Na discussão também se levantou a questão de haver mortos para que se tenha efetivamente uma guerra. Nesse sentido, a noção de guerra tupinambá foi lembrada, como um meio antropofágico de tornar seus soldados melhores, o que parece em contrário tanto à peça de Brecht quanto à própria encenação na sala. Ainda sobre a guerra, a mesma poderia ser entendida como um banquete, um processo canibal de glorificação bélica: a guerra se move pela fome.

Outro ponto importante foi a vivacidade da carroça, já que a mesma era formada por duas pessoas, ou seja, transmutava-se em personagem quase vivo. Nela também foi notado o fato de carregar a morte, tanto simbólica quanto fisicamente, e como um espaço/processo de passagem.

Por fim, o personagem do cadáver talvez tenha trazido mais fortemente a ideia de estranhamento, principalmente no momento em que conversa com o Capelão, já que pareceu indicar aos espectadores um efeito de despertar daquele que parecia constituir apenas um objeto manipulado por outros personagens na encenação e, ao ouvir o oferecimento de um espaço de descanso, desperta curioso, ainda que prefira negá-lo por causa dos altos preços propostos. Neste momento se manipula a ideia de sujeito e objeto e constitui-se, ainda que momentaneamente, a autoridade do morto, que terminará por ser devorado.

Texto de referência: Mãe Coragem e seus filhos, Brecht

Participantes: Alciana, Bruno, Eduardo, Maiara, Carlos, Eduardo, Crys, Priscila, Marina, Fernanda.